Uma tarde no Parque Xangai, depois uma sessão de cinema…

Parecia um sonho o que estava acontecendo naquela tarde, quase noite; era um domingo, mamãe Izabel, padrasto José me levariam ao Parque Xangai; era eu menino de calças curtas nascendo para o mundo, o infantil ainda tomava conta do meu ser, a inocência, a fantasia da vida se fazia sentir. Parque D. Pedro, zona central de uma bucólica São Paulo, o verde imperando em todos os sentidos, a arborização, o cheiro gostoso do bosque; a poluição, o vandalismo não passariam por perto, ele daria espaço para este parque de diversões onde os aparelhos divertiam as crianças e por não dizer alguns adultos.

Lembro-me então como se fosse hoje, dentro do parque aquela mulher elétrica que freneticamente não parava de rir, era a Maria Louca, meu padrasto até faria uma gozação dizendo ser mamãe cópia fiel da boneca, tudo era uma brincadeira inconsequente. Recordo também da barraca de tiro que dava prêmios, mamãe na oportunidade abocaria muitos, era uma excelente atiradora para o orgulho desse menino que vibraria a seguir com os aviõezinhos que iam e viam, como também com a roda gigante que nos levaria as alturas para apreciar ao longe a calma São Paulo no início dos anos 50, tudo isso conservamos na lembrança.

As guloseimas aconteceriam então culminando com a deliciosa pipoca, era fantástico viver essa época quando as famílias eram unidas e despreocupadas, iam a todos os lugares, havia tempo, as pessoas eram diferentes, pena que as coisas se modificaram. Eram gratificantes os passeios.

Parque Xangai dos anos dourados da infância que sempre serão recordadas com saudade, parece que foi ontem que tudo tinha ocorrido. Pena que a gente tinha que ir embora, morávamos longe, no bairro da Casa Verde; um bonde nos esperaria para a volta ali na Praça da Sé, tão pertinho desse parque dos sonhos. Passaram-se anos, agora no túnel do tempo estou com 18 anos e acabo de assistir no Cine Xangai, no mesmo parque, o filme Alta Sociedade com os atores Frank Sinatra, Bing Crosby e a bela Grace Kelly que em uma cena para lá de romântica daria uns beijos que abalariam os sonhos desse jovem, quisera ter nos braços essa linda mulher, mas tudo era a fantasia do cinema.

Este cine fecharia as suas portas para sempre. Chegamos então ao século XX e o Parque é só tristeza; elevados, viadutos cortando e dilacerando a sua alma, o ar poluído, abandono; este é o quadro apresentado; acabara a poesia, a fantasia de passear, todavia, ainda assim mesmo, dá para recordar, não com muito entusiasmo: Uma tarde no Parque Xangai, depois uma sessão de cinema…

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