Memórias de uma rotina

Somos todos presos por algumas rotinas quer de trabalho, quer de modo de vida, quer de estudos. Algumas rotinas são agradáveis, outras enfadonhas, mas que elas existem não há a menor sombra de dúvida. Outro dia, recebi do meu amigo Francisco o "21", um dos Duques de Piu-Piu e que já recebeu menções em alguns textos de minha lavra, uma mensagem escrita depois da leitura de mais um texto sobre o Bixiga, o pedido para que eu escrevesse mais sobre o assunto. Nessa mensagem ele citou pontos e momentos de nossa história e eu, com base nesses momentos, fiz um alinhavado grotesco que resultou nas mal traçadas linhas que ora vos apresento.

Uma das rotinas diárias de nosso grupo era nosso encontro diário, ele acontecia, invariavelmente, todas as noites no Bar e Bilhar Rex, de propriedade do Zé Maria e do Nicola Italiano. Ali nos encontrávamos todas as noites, independentemente de termos nos visto durante o dia, o que também era costumeiro, pois além de trabalharmos próximos, gostávamos de retornar para casa juntos. Então, à noite, depois do jantar, saíamos em direção à Rua Manoel Dutra, quase esquina com a Rua 13 de Maio e, dali, seguíamos para outros programas ou mesmo jogávamos algumas partidas de bilhar e, depois, voltávamos para casa.

Outra rotina constante em nossas vidas era a que acontecia nos finais de semana. Nossos finais de semana eram quase idênticos, porém ótimos. Eles começavam às sextas-feiras, onde à noite nos encontrávamos no Bilhar Rex, jogávamos até mais tarde ou íamos terminar a noite em algum inferninho da "Boca do luxo" de Sampa. Aos sábados, depois do almoço, íamos todos para a casa do Aluisio (outro duque) onde tínhamos a sede de nosso "cassino", ali se juntava aos duques o Sr. Honorio (pai do Aluisio), o "palhetão", que vestido invariavelmente com um paletó de pijama e a inseparável Trunche, uma velha cadela que passou a ser acusada de culpada por todos os ataques de flatulência acontecidos durante os jogos (e eram muitos, quase incontáveis).

Iniciávamos então umas partidas de baralho (buraco, caxeta ou mesmo pôquer), essa brincadeira ia até às 18h, depois cada um seguia para casa. Era a hora do banho, do perfume, do terno, da camisa, da gravata e do sapato bem engraxado. Depois de tudo isso, voltávamos a nos encontrar, devorávamos algumas pizzas na Pizzaria Morais (Av. Brigadeiro Luiz Antonio) ou Pizzaria do Natalino (Rua Manoel Dutra) e, bem alimentados, seguíamos até a Praça da Bandeira, embarcávamos no fretado da Breda e seguíamos para o Recreio das Carpas, na Cidade Ademar para dançar até as 4h da madrugada. Depois, acompanhados ou não, voltávamos para o Centro de Sampa e cada um de nós se recolhia ao lar para o devido descanso.

Domingo, a rotina do 21 era almoçar, pelo menos quatro vezes, a primeira na casa dele, a segunda na casa do Toninho Settani, a terceira na casa do Xiribi e por último na minha casa. E comia em todas as casas como gente grande. Depois, devidamente almoçados, nos dirigíamos novamente para o cassino, que aos domingos também era estádio de futebol pela TV e passávamos as tardes jogando ou assistindo os jogos do Palmeiras.

Fim de domingo, continuando a rotina, íamos ao Cine Rex assistir os dois filmes e, depois, na saída, o destino era comer uns sanduíches de Bauru no Bar Líder. Devidamente lanchados, eu e o Xiribi íamos para a noite nos inferninhos da vida e os demais iam dormir. Tínhamos, porém, a certeza de que segunda-feira, fechando a sequência da rotina, depois de um dia de trabalho, estaríamos reunidos no Cine Rex para assistir aos dois filmes da semana.

Hoje, por causa da idade, da mudança dos duques Toninho, Romano e Xiribi para o andar de cima, essa rotina foi interrompida. Tenho certeza que, depois das mudanças dos duques remanescentes lá para cima, nova rotina será estabelecida e o prazer vai retornar.

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