O Vieira depois de tirar de dentro do bolso do paletó o fumo pegajoso fétido e desfiar com o canivete afiado um naco do tabaco de corda grossa e viscosa, seguiu em frente pela subida da Rua dos Jesuítas até a Rua Pio XI. Como de costume, diariamente, aquela ação mecânica era executada com esmero e perfeição.
O fumo de corda era cortado e lacerado no canivete e misturado uniformemente sobre a palma das mãos depois de caprichosamente triturar e alisar a folha do milho seco. Aquele gesto tradicional estendido com a mão esquerda em forma de concha com muita habilidade, o tabaco era picado previamente e esfregado com a mão direita sobre a palma da mão esquerda e fechado com a própria saliva da língua. O tabaco mal cheiroso e gosmento era, no entanto, para o Vieira, um rito habitual de grande inspiração filosófica. Enquanto esperava o ônibus Praça do Patriarca na Rua Cerro Cora com a Rua Pio XI eis que o cigarro artesanal se apagava naturalmente.
O Vieira estava inscrito na tabela de professores do curso primário de alfabetização de adultos na Penitenciária do Estado de São Paulo na Avenida Tiradentes. De onde morava, tinha, portanto, que tomar duas conduções para chegar ao local do trabalho. Um ônibus até o Centro da cidade e um bonde que saia ao lado do Mosteiro de São Bento na Rua Florêncio de Abreu e descia na Avenida Tiradentes defronte ao presídio.
O trajeto até lá era longo, porém não cansativo. Ele estava acostumado com aquela rotina porque naquela época não existia nenhuma condução que ligasse um bairro a outro. Durante aquela longa viagem trazia-lhe recordações da sua meninice e adolescência vividas na sua querida Póvoa de Varzim, próximo à região do Porto, em Portugal. A envolvente calmaria, própria do sussurro suave do vento que vez ou outra no balanço do capim verde realçava os detalhes da paisagem como se afagasse a alma como uma carícia e uma gratidão pura.
Estava ele a meia-encosta de um outeiro cuja balda corria no meio das arenosas margens do Rio Pinheiros. Em frente, estendia-se o grande pasto verde da Estrada da Boiada. Na época não havia ainda nas cercanias do Jaguaré e da Vila Leopoldina o entreposto do Ceagesp. A monotonia da região de verdura clara era quebrada aqui e ali pelo canto dos pássaros que rodeavam o sombrio da folhagem basta, no relevo da vegetação rasteira, havendo a presença dos ingás e da beleza de alguns paus-d'alho.
Naquele tempo São Paulo ainda era provinciano, quase interiorano. Os prédios da USP estavam em construção e ao seu redor erguiam-se espécies de paineiras, cássias, araribás, belos exemplares de jequitibás de figueiras brancas, amendoins do campo e árvores de peroba rosa. Ali era ainda a mata araucária atlântica rica da fauna e da flora silvestre existente no entorno das margens do Rio Pinheiros.
Ali ainda se respirava natureza. Ao fundo, de um lado, em corte brusco a mata virgem escura acentuada, maciça quase e ao longe o cume do Jaraguá envolto em neblinas. Naquele tempo São Paulo ainda era campestre, pastoril exaltando-se as belezas da vida com muita mata em quase todos os bairros da cidade. Perto da casa do Vieira no Alto da Lapa a coisa também não era diferente.
Havia próximo do ponto do ônibus alguns ramos dispersos que indicavam ter havido ali um ninho morno e sonoro cheio de sussurros de pássaros. As aves migratórias começavam a chegar para saudarem o verão brasileiro e o piado delas enchia o silêncio das matas nas manhãs floridas. Bem-vindas eram elas.
Belas garças brancas atravessam a mata, vinda das lagoas formadas pelo extravasamento do Rio Pinheiros. Alguns pardais travessos vagueavam entre os ninhos pendentes ocultos entre os arbustos.
Era um prazer ver os pássaros escalarem os mais altos ramos das árvores para de lá saudarem o sol com alegres trinados. Esse São Paulo existiu? Sim!
Existiu de fato! Naquele longínquo tempo, quando a cidade ainda conservava as características naturais, dos tempos do império havia muita mata ao derredor dos bairros preservando a virgindade da mata ciliada, bem distante ainda do desmatamento que traria no futuro consequências funestas e desastrosas.
Como era bom o São Paulo de outrora. Não havia ainda as perigosas marginais do Rio Pinheiros e Tietê. Da sacada do sobradinho da casa do Vieira avistava-se no horizonte a grande várzea que ladeava o Rio Pinheiros em toda a sua extensão; depois da ponte, à esquerda, próximo da torre do relógio havia uma pista de um precário aeroporto aonde um aviãozinho T-meia de duas asas, diariamente, quase sempre na mesma hora, vinha do Campo de Marte e fazia a sua aterrissagem ao lado da ainda incipiente Cidade Universitária da USP, que estava em construção.
O grande movimento do trânsito só se limitava a algumas ruas do centro da cidade uma vez que todo o comércio se acercava nas ruas do centro, como a Rua Direita, Rua São Bento, Rua Florêncio de Abreu, além do centro bancário de São Paulo quase todo concentrado nas Ruas Álvares Penteado, Rua XV de Novembro e Rua Boa Vista. Hoje, já passados 60 anos a cidade sofreu uma modificação expressiva. O Vieira depois de ir para Portugal e ao retornar para o Alto da Lapa ficou desolado ao observar a mesma casa encheu-se de perguntas.
Onde estariam os ninhos dos pássaros de sua mocidade? Hoje tudo está diferente. O asfalto, os prédios, o comércio desenfreado em quase todos os bairros da cidade, infelizmente substituíram aquele cenário de calmaria, tão necessário para a sobrevivência da flora e da fauna natural e todas as manhãs e tardes os pássaros vinham em busca de alimentos e da copa das árvores onde costumavam se abrigar. Ouvia-se o trinado alegre das aves em busca do abrigo para passarem a noite. Infelizmente tudo acabou. O homem conseguiu terminar com uma parte da natureza. Onde andam os pássaros de outrora? Sumiram!
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