24 de fevereiro de 1972. Dia de meu aniversário. Trabalhava, então, numa pequena agência de propaganda na Av.Vieira de Carvalho, mas com importantes contas. E trabalhava muito.
No ano anterior, fora contratado um badalado, porém tresloucadíssimo jovem diretor de criação.
Seu primeiro ato foi renovar a equipe, e nesta leva vim eu. Rapaz "certinho", com direito a crédito na Exposição, caí de repente num ambiente de contra – cultura, uma edição hippie limitada de Woodstock.
Era um mundo novo e louco, mas, como sempre, procuro aprender e assimilar o melhor de cada situação. Foi o que fiz, renovando-me totalmente.
Era charmosa então, a Vieira de Carvalho. Para começar, junto á Pça. da República, a estátua do
índio agachado,em bronze. E no seu final, no Lgo. do Arouche, a réplica em mármore do Augusto
da Prima Porta, local onde a estátua foi desencavada em Roma, e que hoje está nos Museus Vaticanos.
Bons restaurantes, o Rubayat,o velhíssimo Carlino, o Almanara, o La Casserole, e last, but not
least, o maravilhoso Restaurante Transatlântico, defronte á estátua de Augusto.
Prédio de pouca estatura, ficava nossa agência à sombra do maciço Edifício Andraus. O dia decorria como de costume, quando alguém falou em fogo, no prédio atrás. A princípio, não parecia ser grande coisa.
Fui a uma das salas dos fundos, puxei a persiana e o inferno abriu-se á minha frente. Entre os estouros dos bujões de gás, a primeira coisa que vi foi um homem, cortando o espaço, em direção ao solo.
Uma colega, ao lado, desmaiou e tive de ampará-la. Avisamos o pessoal e evacuamos a agência, descendo pela bela escada circular. O "genial" diretor de criação, egoísta a não mais poder, já tinha fugido antes, sem avisar ninguém, agitando os braços, como um pato. Aliás, seu apelido era "Pato Donald", por seus histéricos ataques de fúria verbal.
Saí e, visto da São João, parecia o fim do mundo. O Edifício Andraus transformado numa pira, as chamas subindo a enormes alturas, rolos de fumaça negra toldando o céu.
Os motores dos helicópteros tentando salvar as pessoas no teto, as sirenas dos carros de bombeiro,
todo esse ruído contrastava com o horror mudo das pessoas na rua, impotentes para tentar qualquer ajuda. Precisava ir para casa, o que não seria nada fácil, com os imensos congestionamentos.
Por sorte, tinha deixado meu carro longe, ali pela Amaral Gurgel, e consegui escapar do tumulto. Muitas voltas e horas depois cheguei em casa. Era meu aniversário, mas não havia porque comemorar.