Quando pequenos, nossos pais traziam-nos a São Paulo nos ônibus da Viação Cometa, de Campinas. A Via Anhanguera ainda não existia. O que havia era a Estrada Velha de Campinas, que subsiste ainda em alguns dos seus trechos, como Av.Raimundo Pereira de Magalhães.
Estranhíssima via, pois vem de longe, e chegando ao Tietê se interrompe, continuando sem ponte na margem de cá.
Então foi inaugurada a Anhanguera, na época uma estrada modelo, com um enorme busto de Adhemar de Barros e tudo.
Por esta época meu pai já tinha carro. Não importa, pois a chegada a São Paulo continuava da mesma estranha forma: cruzando o rio, chegava-se à Lapa de Baixo. Ali, no final da Raimundo Magalhães, geralmente pegávamos um grande congestionamento.
Vocês acham que era fácil entrar na grande cidade, mesmo nessa época? É que deparávamos com um absurdo: a entrada de todo o tráfego, mesmo o mais pesado, era feita através de um estreitíssimo e baixo pontilhão, sob os trilhos da via férrea.
E com um semáforo, para fazer passar uma mão por vez. Mais não dava.
Lembrava-me a muralha de uma cidade medieval, onde os invasores se esgueirassem por um estreita e insuspeitada brecha, único meio de abordar a cidade. Era muito estranho penetrar na grande São Paulo, por um buraquinho no muro.
Muita água passou sob as pontes do Tietê, mas jamais esqueci essa incrível entrada, nada triunfal. E sempre pensei se ela ainda existiria.
Pois bem, senhores, existe. Dirigindo-se à Lapa de Baixo, nas proximidades do mercado, é só seguir a indicação "Vila Anastácio". Sigamo-la, e lá está o pontilhão, tão estreito e escuro, como nos velhos tempos.
Ainda se tem que aguardar o semáforo abrir, pois mais que um carro não passa. E raspando no teto, se for alto. É verdade que se foram seus tempos de gloria, e pouco trânsito passa por ali. Mas ainda é de arrepiar ver os ônibus para o Anastácio tirando fininha na arcada.
Uma coisa não passou, nunca, neste lugar. Foi o tempo, ali congelado há tantos anos, ou séculos atrás. E creio que assim continuará, até o final dos tempos.