Domingo de Ramos da malandragem

Anos 50 e 60. Nas igrejas católicas se comemoravam com muito respeito esse dia. Morava na Mooca e tínhamos, bem próximo à igreja de San Gennaro, este dia, ou seja, Domingo de Ramos. Existia, digamos, um talismã vindo já da época de Jesus Cristo em sua passagem pela terra. Então, se reuniam vários amigos e trabalhadores que nesse dia procuravam, de uma forma honesta, ganhar um dinheiro extra para ajudar suas famílias. Reuniam-se no sábado e iam até o parque D. Pedro II à procura de árvores que tinham uma folha de nome Palma, que dava em uma árvore bem parecida com um coqueiro. Depois disso, íamos até a Rua Visconde Parnaíba, bem próximo à Rua Piratininga, onde havia em um quintal com moradores uma árvore de oliveira, ou seja, uma árvore de azeitonas. Diz a história que Jesus usava muito essas plantas para abençoar as pessoas e seus lares e que estas levavam folhas de oliveiras e colocavam como um talismã, ou digamos uma proteção, contra mau-olhado.

Se hoje estamos cheios de enigmas, imaginem há 2000 anos atrás. Então, levávamos essas plantas para casa e todos se reuniam e faziam maços amarrados com a própria planta. Aí, os colocavam em bacias com água, como uma proteção, e no dia seguinte passávamos a noite na porta da igreja de San Gennaro, para pegar o melhor lugar para vender os maços para os católicos, digamos frequentadores da igreja e que tinham muita fé nessa religião e nesses enigmas respeitados há tantos anos.

Cada um tirava seu dinheirinho para ajudar na manutenção de suas casas, mas em uma dessas madrugadas, já por volta das 5h da manhã, resolvemos ir tomar café em uma padaria embaixo do salão Piratininga, que seria bem próxima à referida igreja. Mas, quando voltamos, haviam desaparecido todos os maços do nosso produto de venda. Então, todos ficaram nervosos e xingando na porta da igreja, mas, de repente, um desses amigos disse:

– Espera um pouco os caras que roubaram os maços vão ter que vendê-los por aqui.

Isso já seria 6h da manhã e começaria a primeira missa e todos conheciam seus maços de plantas, pois um era diferente um do outro e disse também que pessoas canhotas mudavam totalmente o tipo de nó dos maços. Aí, começou uma procura geral e os maços foram encontrados com duas pessoas na porta da igreja Dom Bosco, bem próximo ao local do roubo. Então, para não virar uma tremenda confusão, foi combinado que se aumentasse o valor de cada maço e dividisse no final, também os frequentadores da Igreja Dom Bosco teriam condições de comprar o produto, mas o mais engraçado é que os aumentos dos produtos, quaisquer que sejam, sempre cai na população.

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