Os sons do silêncio

Neste site, eu procuro sempre contar histórias que marcaram minha vida, nesta São Paulo querida, principalmente na minha amada Parada Inglesa.

Sempre procuro contar as histórias alegres ou singelas, porque tristeza não paga pena. Mas é claro que eu, assim como todos, também tive momentos muito tristes e lendo uma história do colega Missão, resolvi contar esta que não gosto de lembrar e até hoje me traz lágrimas nos olhos.

Vocês já notaram que a noite não é completamente silenciosa. Prestem atenção. Algum dia de madrugada quando parece que tudo está quieto, percebam que a noite tem sons, nunca está totalmente silenciosa, é como se o silêncio murmurasse seus ruídos.

Pois bem, o ano era 1974, os primeiros dias, o endereço era a Rua Tutoia e o lugar era o malfadado Doi-Codi. Eu tinha acabado de cair. Cair era como a gente dizia, quando um de nós, os subversivos, segundo eles, era pego pela repressão. Lá nos porões da Ditadura, não se torturava durante a noite, para que os gritos de dor não fossem ouvidos. As torturas maiores eram feitas durante o dia, para que o barulho da cidade escondesse o grito do torturado.

Eventualmente, quando a gente era torturado durante a noite, nossa boca era entupida com trapos para que nem gritar a gente pudesse.

Portanto, durante a noite, os sons do silêncio eram os gemidos de dor daqueles que haviam sido torturados durante o dia, assim como eu muitas vezes fui, durante quase 60 dias que lá estive, antes de ser exilado em uma cidade chamada Cruzeiro do Sul, que fica a 600 Km de Rio Branco, capital do Acre. Naquela época, a gente só chegava lá de avião ou de barco, assim mesmo, de barco só antes das chuvas porque com as chuvas, os alagamentos tornavam a navegação muito perigosa. Imaginem como a gente ficava isolado.

Nas celas, onde estive preso quando os gemidos paravam, a gente sempre ia verificar se parou porque o torturado apesar da dor conseguiu dormir ou se tinha parado para sempre. Lembro-me de dois que pararam de gemer para sempre, o Dídimo e o Altair.

E depois, um dia destes, alguns anos atrás, em um jornal de grande circulação aqui de São Paulo, um bocó ainda veio dizer que aqui no Brasil não houve uma ditadura, foi mais uma “ditamole”.
Queria ver se ele tivesse passado pelo que eu passei, para que hoje ele pudesse dizer uma estupidez desta, se estaria tendo a mesma opinião.

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