Juramento à Bandeira

Um fato pitoresco ocorreu comigo no ano de 1963, quando fui jurar bandeira no quartel da Rua São Joaquim, no Bairro do Cambuci. Esse relato serve ao mesmo tempo do descaso que temos, nós brasileiros, com o hino da nossa terra, até compreendendo que, para aquela época, a maioria do pessoal da região, envolvida a minha compreensão entre aspas. Ao nos apresentarmos pela manhã, no quartel, ficamos em um pátio por mais de duas horas aguardando as autoridades, para o início das solenidades.

A maioria do pessoal presente era da região Norte e Nordeste, que migraram aqui para Sampa a procura de trabalho, sendo uma ótima época para eles, em razão do desenvolvimento da capital com grandes construções (era o início da construção da Selva de Pedra em que se tornou São Paulo) e a necessidade que tinha de mão-de-obra. Como fui criado desde pequeno no interior, naquela época, antes de entrarmos na sala de aula, tínhamos que cantar o Hino Nacional, isto é, todos os dias. Na prova final do ano letivo tivemos que escrever todo o hino e mencionar o nome dos autores (letra e música).

Voltando a cerimônia, o Coronel (não me lembro bem se era essa a patente do chefe de cerimônia) já estava a mais de uma hora discursando e nós, embaixo daquele sol escaldante, perfilados lado a lado sem poder se mexer, mais do que exaustos. E para encerrar, tínhamos que cantar o Hino Nacional. Sabe quando você começa a cantar, mas a maioria não sabe toda a letra do hino? Nos refrões o tom ia lá em cima, depois ia caindo, caindo, por não saberem direito toda a letra, um verdadeiro desarranjo, terrível.

Para piorar as coisas, o Coronel deu um sermão em nós, em razão que naquela semana veio para o Brasil o Príncipe Japonês, tendo recebido toda a comunidade Nipônica no Estádio do Pacaembu, onde todos cantaram o Hino Nacional do Japão, estando ele presente. E completou que foi um ato de patriotismo fora do comum, por estarem fora do seu país e saberem o significado do hino da sua pátria-mãe. E foi esticando o discurso, nos criticando, até que um gaiato lá do Norte (creio eu) gritou:

"- Vamos acabar com essa conversa fiada… Me dê logo esse diploma de brasileiro que preciso trabalhar" – gargalhadas. No final das contas, ficamos mais algumas horas a espera do certificado, em razão do castigo aplicado pelos oficiais do quartel.

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