De volta à Igreja de São Dimas

Saio para andar pelas ruas do meu bairro, sem rumo definido. É um antigo hábito que me permito, principalmente, em fins de tardes de outono. Sinto como se meu espírito também se banhasse da mesma luz dourada que vai pincelando telhados, árvores e rostos desconhecidos que passam…

Na Domingos Fernandes, uma surpreendente vontade de entrar na velha Igreja de São Dimas se assenhoreia de mim. Titubeio. Há muito tempo não a visito. Na verdade, perdi-me dela há muitos anos.

E então, num repente, como atendendo a um chamado interior, inesperadamente me vejo de volta. Olho ao meu redor e, por momentos, é como se tivesse voltado ao passado… A minha igreja de infância continua igual. As mesmas paredes cinzentas, os vitrais coloridos levemente embaçados de pó, os bancos polidos.

Sinto que ela me abraça e me entrego, fechando os olhos como quando tinha 12 anos. Vem, então, a doce lembrança de ter sido lá, no meio do silêncio eloquente de suas paredes, que entendi, pela primeira vez, a felicidade que existe na paz.

Voltam, como que bailando no ar, em meio a um aroma de saudade – preces que fiz, segredos que contei. Ela me conhecia tão bem… Abrandava meu coração, enxugava minhas lágrimas e embalava meus sonhos.

Minha velha amiga, minha boa mãe, meu secreto esconderijo. Foi lá que chorei minha primeira lágrima de amor e que tantas vezes agradeci por momentos felizes. Que saudosa e enriquecedora época aquela de nossas vidas, quando passamos do inferno ao êxtase da felicidade, morrendo ou renascendo a cada nova emoção!

Abro os olhos e a sua visão ainda me fascina…. Tantos anos se passaram e eis que a menina, que o tempo tornou mulher, está de volta, sentada à sua mesa, servindo-se de sua paz e acalentando recordações queridas…

A súbita visão de alguém adentrando pelo altar e acendendo uma lamparina me traz de volta. Não, não é o Padre Arnaldo ou o Padre Palácios. Eles sim, se perderam no passado.

Não sei quanto tempo passei em devaneios, mas sinto que é hora de voltar para casa. Saio e, de volta à rua, vejo-me em estado quase etéreo, com se ainda estivesse viajando no tempo.

A luz dourada do fim de tarde já se avermelha, retocando o que abarca com nuances de nova beleza. Caminho, invadida por uma sensação muito boa de paz e tranquilidade, sentindo-me como renovada pelas lembranças de um tempo vivido, que minha velha e querida igreja de infância me trouxe de volta.