Com destino à casa de Dona Rosária, situada na Rua Paulo Andrighetti, próxima à Rua Catumbi, Alto do Pari, eu saía da Rua Antônio Fonseca, Vila Maria, todos os dias às 11h para entregar marmita para a Senhorita Shirley, que almoçava na residência de sua irmã Dona Rosária. Shirley era funcionária da empresa Goodyear.
Naquela época eu tinha 10 anos de idade. Minha família era muito pobre e a minha obrigação era a entrega de marmitas, com chuva ou com sol, e recebia alguma quantia por esse trabalho. O caminho era pela Av. Guilherme Cocthing. Hoje, após o rio, mudou o nome para Av. Ariston Azevedo. Fazendo os cálculos, a distância era de mais ou menos três quilômetros, ida e volta. A travessia do Rio Tietê só se fazia através de uma ponte de madeira, que quando o bonde passava, tudo balançava.
Agora, a parte sentimental dessa narrativa é que todos os dias a Dona Rosária fazia questão que eu almoçasse em sua residência, e sentado à mesa com todos almoçando ao mesmo tempo. Era como se eu fosse da família. Dona Rosária me parecia uma senhora muito boa para comigo. Hoje eu me pergunto: Se eu levava marmita para sua irmã, por que eu tinha que almoçar com eles? E que almoço!!! Jamais me esquecerei.
Tudo bem! Bondade da Srª. Rosária, que hoje só tenho que agradecer, pois em minha casa não se comia tão bem. Durante as conversas que eu tinha com ela, eu lhe disse que gostaria de conhecer o Capitão Barduíno (Pedro Astenori Marigliani), apresentador de um programa sertanejo da Rádio Bandeirante. Na época, a emissora estava localizada na Rua Paula Souza, nas imediações do Mercado Municipal. Como ela conhecia o apresentador, mais que depressa ela me disse para eu ir à Rádio Bandeirante e então conhecê-lo. E foi o que aconteceu. Fui à emissora e lá tive a satisfação de conhecê-lo. E ainda mais: tive uma surpresa, o apresentador levou-me até a casa de Dona Rosária, num espaçoso automóvel, juntamente com um famoso repórter daquela época, conhecido como ‘Tico-Tico’ (José Carlos de Moraes).
Há mais um fato que me impressionou muito durante os dias de entrega de marmitas. Voltando para minha casa, no meio do caminho, caiu uma chuva muito forte e uma ventania que dava medo. E para atravessar a ponte de madeira sobre o Rio Tietê com tanto vento e a ponte balançando? Que medo! Fiquei parado, estático mesmo, e com um pavor enorme, até que um senhor pegou em minha mão e consegui atravessar, porque eu achava que tudo ia cair com tanto balanço. E ainda, por coincidência, um bonde passou bem próximo de nós, fazendo um barulho muito forte.
Enfim, é tudo história da vida real.