Terra amada

Viver fora de São Paulo, viver longe do Brasil. Tanto um quanto o outro me incomoda. Pude vivenciar as duas alternativas e digo que em nenhum dos momentos pude ser inteira onde estava. A segunda, que foi a primeira, eu me vi ainda jovem com "mi hija maior", ainda bebê, a morar em um país vizinho, o Chile, na capital, Santiago.

Já havíamos nos conhecido anos antes, em breve estadia de férias. De Concepcion a Santiago, posso dizer que fomos sempre muito bem recebidos. Não vou omitir que estranhava ter que levar mantas quando íamos à Viña del Mar, arrepiados, a tentar apreciar a praia com seu mar acinzentado e areia cascalhada e grossa.

Quando, por necessidade de trabalho, anos depois tivemos que retornar ao país amigo, confesso que "me quede" feliz, afinal, poderia "mirar" as neves eternas da cordilheira dos Andes, da janela do nosso quarto, comer aspargos nativos vendidos aos montes nas esquinas das "calles", me lambuzar com os “duraznos” grandes e suculentos. Mas confesso que sentia falta da nossa banana nanica madura, pintada e cheirosa. E o que dizer da nossa goiabada, que cansei de procurar pelos mercados? E saber, pelo menos na época, que não encontraria.

Mas como dizem que quem tem mãe não morre pagão, vez ou outra, a minha enviava algumas barras para deleite da turma. O vinho tinto era comum, mas a nossa caipirinha era motivo de reunião com direito a discurso no final. Pratos típicos, com apetitosos peixes, era presença repetida no cardápio. Mas a nossa feijoada, ah! A nossa feijoada não sobrava pra contar historia.

Quando retornei a São Paulo, mal desfiz as malas e já embalando minha segunda filha, fomos transferidos para o Rio de Janeiro, para um condomínio elegante, onde até balsa havia para transporte exclusivo dos moradores que, vez ou outra, buscavam na areia fina e branca da Barra, o nosso bronzeado pimentão, de paulistas desavisados. Apesar de já estar em ‘terra mãe’, confesso que da minha varanda, no Rio, olhando o horizonte, imaginava a Serra da Cantareira, que da minha janela, na cozinha de meu apartamento paulista, tanto me encantava.

Ir para Ipanema, Leblon, Copacabana, passeios quase que constantes devido aos inúmeros visitantes que, aproveitando nossa acolhida e saudade, quase sempre preenchiam nossos finais de semana. Nem de longe, confesso, me alegravam como em ‘Sampa’. Era transitar por qualquer bairro paulista, como a Liberdade, Higienópolis, Brás, Moema e que dizer de Santo Amaro, onde cada canto se coloria com a arquitetura e a cultura típica do local? A linha vermelha ainda não existia e, apesar de dizerem que na praia todos somos iguais, já se sentia a pressão que em breve eclodiria na violência atual.

Não que na minha querida São Paulo as diferenças não existam, mas, como em toda família, procuramos amenizar o lado negativo, pois queremos a todo custo enaltecer as qualidades. Hoje, com filhos gerados e criados em São Paulo, dou-me o direito de sentir o colo gostoso da minha querida cidade, oriunda de um país – o meu querido Brasil.

Obs: Palavras em espanhol: – mi hija maior (minha filha maior); me quede (fiquei); mirar (olhar); – calles (ruas); – duraznos (pêssegos);