A emoção e a certeza

Eu aguardava com uma ansiedade positiva. De que formato seria? O que seria? Será que se lembrariam mesmo de mim? Ora, uma escritora sem projeção. Apenas uma cronista, apaixonada por São Paulo. Mas o amor desabrochou mesmo foi quando parti dessa minha cidade. Até então o estresse consumia os meus sonhos, o meu corpo, a minha essência. Fora dura demais a minha experiência como jovem cidadã descobridora do mundo. Desde muito cedo, arrimo de uma família de seis pessoas com um pai doente todos os dias da sua existência. Eu não conseguia ter olhos disponíveis para apreciar a grandeza da cidade, a sua magnitude, poesia. Eu via os desastres, o desconsolo, o medo, a ameaça do bandido de olhar duro e sem nenhuma compaixão chegando.

Triste juventude sem brilho! Com medo e pouca ousadia. Apenas compromissos inadiáveis para quem queria viver e ter como companheira a dignidade e o eterno carregar de tijolos para uma construção diferente da que eu herdara. Saí da cidade. Fui procurar oxigênio, uma nova forma de perceber o mundo, que poderia sim ser mais gentil, amoroso e fraterno.

Com o tempo percebi que os problemas eram mais meus. A distância me provocou uma nova visão de São Paulo. Percebi que junto das tragédias existe também o poema, junto da insegurança o ser solidário, ao lado da imprudência o sorriso sempre possível. Paralelo ao stress absoluto e radical, os centros de cultura e a musicalidade dos grandes eventos acalentam os corações intranquilos e a mente à procura de grandes possibilidades. Percebi a cidade como um espaço do provável, do humano, da paixão e da entrega.

Recebi o kit São Paulo com uma alegria muito intensa. Uma ex-aluna carteira me fez a entrega na porta de casa. Com alegria contida para não parecer infantil, fui folheando cada página e percebendo o inadiável resgate cultural que eu já poderia ou deveria ter feito. Fui descobrindo novidades por mim inimagináveis. Observando as fotos com olhos molhados – todas lindas, magníficas, como se todas elas falassem de sonhos, de perdas e de buscas. Percebi a cidade, ou melhor, uma parte do mundo, no papel, e todos merecendo visibilidade, cada um tendo reconhecido no seu valor, com a sua contribuição para que a vida vencesse, os abraços se tornassem possíveis, a melodia escapasse sorrateiramente de um bom concerto no Theatro Municipal, o ar fresco do Trianon pudesse sair a passear não só pela Paulista, mas visitar tantos outros espaços.

Pude sentir o aroma nostálgico das pizzas do Bixiga convidando a todos – ricos ou pobres – para partilhar do maior banquete do planeta: aquele feito com saudade, muito trabalho, partidas e chegadas, sorrisos e lágrimas, encurtamento de distâncias e ponto de parada. Humildemente peço desculpas para a cidade que um dia deixei. Mas jamais virei as costas para ela. Apenas tive que repensar a minha existência até então muito sofrida e de magras esperanças. E hoje amo a minha terra mais do que qualquer outro chão.

Obrigada, São Paulo, por me acolher carinhosamente todos os anos com a certeza esperada do respeito de uma filha para com a mãe e que me recebe sempre com uma pitada de bom humor, pois sempre que chego de carro com a minha família, ao subir a rua Manoel Jacinto, o raro ônibus Vila Sônia desfila vagarosamente na nossa frente. O meu marido ri, porque esse ônibus nunca lhe foi acolhedor nos seus tempos de juventude muito apressada. E eu lhe pergunto: – O que é aquilo ali, Nashinho? Ele responde meio brabinho: – É o Vila Sônia.

Emoção por todas as construções, criações e experiências vividas e certeza de que deixei – como todos deixaram – alguma herança bendita para as novas gerações. Obrigada, obrigadíssima à equipe do SPMC pela gentileza e por ter se lembrado de mim.

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