História do Martinelli

Ao lançar em São Paulo o projeto "Leitura nas Alturas" o SESC Carmo pretendeu até o final do ano promover a leitura de livros indicados para a Fuvest com a complementação de palestras com especialistas.
O projeto se desenvolve nos altos do Prédio Martinelli, mais precisamente no seu terraço. Além do objetivo direto do programa, paralelamente se motiva um conhecimento maior da cidade, com a oportunidade dos participantes conhecerem um dos ícones de São Paulo, o Prédio Martinelli e ter uma visão – do alto – do centro histórico da cidade.

Conhecer o espaço onde se desenvolve o projeto também é cultura. E o Martinelli tem história, que se inicia com Giuseppe Martinelli.

Giuseppe Martinelli (nascido em Lucca -Toscana – Itália e 1870 e falecido no Rio de Janeiro em 1946, como Comendador Martinelli)) imigrou para o Brasil em 1888, mas não veio, como a maioria, para trabalhar na lavoura e sim na cidade. Ele chegou pelo vapor Santa Maria, tendo desembarcado no Rio de Janeiro, no dia 17 de Janeiro de 1889. Escolheu o comércio, ramo que oferecia maiores perspectivas de ganhar dinheiro para um recém-chegado a terras estrangeiras.
Em 1906, Martinelli e sócios já tinha uma casa bancária em Santos e em São Paulo e começara a ser procurado para representar firmas exportadoras italianas. Durante a 1ª Grande Guerra em 1915, formaram uma frota própria de navios, para tentar suprir a falta de transporte acarretada pela guerra.
Assim, em pouco mais de 30 anos, fizera fortuna, de uma fama que se poderia qualificar de característica do homem que se fez por si.
A popularidade de Giuseppe Martinelli, no entanto, veio-lhe, sobretudo da atuação que teve na capital paulista ao construir o prédio que seria o primeiro(?) arranha-céu da cidade e da América do Sul.

Em 1925, foi que começou a ser erguido o "pai" dos arranha-céus paulistanos – o "avô" é o Edifício Sampaio Moreira – o Edifício Martinelli. Marco arquitetônico foi destaque naquele momento, inovador, apontou o futuro da edificação da cidade. Com uma altura de 130 metros, seus 30 andares mudaram a paisagem, e a evolução urbana da cidade. Foi um divisor de águas e depois dele começou a verticalização de São Paulo.

O local escolhido por Giuseppe Martinelli para edificar sua torre foi o coração da metrópole do café, uma das zonas mais movimentadas e elegantes do centro. Nas vizinhanças estava a Praça Antonio Prado onde havia o Palacete João Brícola, as sedes dos jornais "Correio Paulistano" e "A Notícia" e conhecidas confeitarias de luxo, como a Castelões e a Brasserie Paulista, ao lado dos bancos e do comércio elegante na Rua XV de Novembro.O local escolhido por Giuseppe Martinelli para edificar sua torre foi o coração da metrópole do café, uma das zonas mais movimentadas e elegantes do centro. Nas vizinhanças estava a Praça Antonio Prado onde havia o Palacete João Brícola, as sedes dos jornais "Correio Paulistano" e "A Notícia" e conhecidas confeitarias de luxo, como a Castelões e a Brasserie Paulista, ao lado dos bancos e do comércio elegante na Rua XV de Novembro. Logo adiante vai ser construido o prédio dos Correios e Telégrafos

Não tendo apoio governamental para terminar a obra, Martinelli foi obrigado a vende-la ao "Instituto Nacional de Crédito per il Lavoro Italiano a L'Estero, perdendo aquilo que lhe era mais caro e pelo qual havia lutado grande parte de sua vida. Foi para o Rio de Janeiro refazer sua fortuna e quando vinha para São Paulo procurava não passar em frente ao prédio de desgosto pela sua perda".

A parte externa do Martinelli é toda de pedras rosadas trazidas da Itália. Tem 130 metros de altura e no interior os mármores de Carrara cobrem os pisos e os 1057 degraus. As ferragens são inglesas, as portas de pinho-de-riga; tem 2330 janelas e 1880 salas e apartamentos. Todo o cimento para a construção veio da Suécia e Noruega por meio da empresa importadora de Martinelli. Nele trabalharam 600 operários e mais de 90 artesãos foram encarregados da fachada desenhada pelos irmãos Lacombe.
O Martinelli ocupa meio quarteirão da rua São Bento, meio quarteirão da rua Líbero Badaró e toda a ladeira São João. Foi projetado pelo arquiteto húngaro Willian Fillinger para ter 17 andares. Mas, o Comendador resolveu subir a construção até o 24º andar. A Prefeitura embargou a obra, mas ele não ligou e prosseguiu na construção. Diante da insistência do idealizador a administração municipal convocou uma equipe para testar a viabilidade dos sete andares adicionais. Foram feitas sugestões quanto aos materiais mais leves. Mesmo chegando ao final dos 24 andares, ainda havia desconfiança quanto à solidez do prédio. Para provar que se tratava de uma edificação robusta, o comendador determinou a construção de sua própria casa no topo – uma mansão equivalente a mais seis andares. Enquanto durou a construção dos últimos andares, Martinelli passou a residir no 9º andar.

Foi nessa mansão de "cobertura" do Martinelli, que a alta sociedade paulistana viveu alguns de seus momentos mais glamourosos na década de 30. Das festas podia-se observar uma São Paulo luminosa, sem poluição ainda, mas às vezes encoberta pela garoa e neblina. Essa mansão era uma extravagância em cima de outra extravagância. Era um "mundo exclusivo onde não chegava a pressão do cotidiano, seus ruídos, . sua vulgaridade, o suor, o pecado" "Seus terraços tinham como ornamento maior o sol e o vento" – Marcos Rey – O Último Mamífero do Martinelli

Andando agora por esse terraço que rodeia toda a mansão, a imaginação trabalha com a visão do protagonista da história de Marcos Rey, um ativista político da época da ditadura que se esconde dentro do edifico vazio e que sobe a pé os 26 andares do prédio para tomar, nu em pelo, seus banhos nas chuvas mais fortes. É o passado se intrometendo no presente.

Em pleno funcionamento em 1929, o Prédio Martinelli era um sucesso. Na rua São Bento, o famoso Cine Rosário – luxuoso com suas poltronas estofadas e lançamentos em primeira mão. Barbearias e lojas conceituadas eram seus visinhos. O famoso hotel São Bento, na rua Líbero Badaró, com 60 apartamentos de primeira linha, banheiros privativos e telefones automáticos, também era no prédio.
Havia também uma escola de dança e residências.

Em 1932, os terraços, pela sua posição privilegiada abrigavam uma bateria de metralhadoras antiaéreas para defender São Paulo do ataque dos chamados "vermelhinhos", os aviões do governo da República que sobrevoavam a cidade, ameaçando bombardeá-la. Felizmente não se repetiu o que tinha acontecido na revolução de 1924.

Em 1936, quando da vinda do dirigível Hindenburg para São Paulo, foi ao redor do Martinelli que ele sobrevoou. E Mário de Andrade escreveu sobre isso: "E o Zeppelin veio provar pra São Tomé o sofisma gracioso de que uma casa de um andar (altura do dirigível) pode ser mais alta que o Martinelli"

Durante a Segunda Guerra Mundial com o rompimento de relações do Brasil com a Itália, o prédio passou para as mãos da União e passou a se chamar Edifício América. Mas ficou conhecido sempre como o Martinelli.

Durante seus anos de ouro o prédio foi sede de clubes – Palmeiras, Portuguesa – da Associação dos Funcionários do Banco do Brasil, teve redação de jornais, sede de partidos políticos.
Quase meio século depois de ser inaugurado, e depois que passou para as mãos do governo, o abandono e a ocupação desordenada mudaram o aspecto e o cotidiano do Prédio. E em 1945 o prédio sofreu a primeira reforma com remodelação de parte de sua estrutura.

Já em 1950 José Francisco Cascone que trabalhava no prédio como aprendiz de ourives numa conceituada oficina de jóias instalada no 19º andar, nos dá seu depoimento:
"Trabalhei 12 anos no Martinelli e tive que conviver com um estilo de vida inimaginável na realidade, julgada existir apenas nas telas de cinema. O prédio nunca fechava. Eram 24 horas diárias de movimentação. Das 8h às 17 horas havia atividades exclusivamente comerciais, com circulação de clientes de joalheiros e alfaiates renomados, e que entravam pela rua Líbero Badaró. Mas, a partir desse horário até 7 horas da manhã, era um completo e perfeito prostíbulo, onde corria solto o tóxico, as bebidas e o comercio do sexo. Os elevadores não eram usados e as escadas serviam de passarela para os mais absurdos desfiles de prostituição. Eu nunca participei de tais orgias porque era um funcionário da oficina de jóias e se às vezes ficavam até mais tarde era pra cumprir data de entrega de algum grande encomenda".

Por descaso das autoridades, o Prédio Martinelli transformou-se num imenso cortiço, onde se improvisaram vários cômodos que abrigavam um enorme numero de famílias. Era ocupado por escolas de dança, boates, academias de baixo padrão, profissionais liberais não tão bem sucedidos, salão de bilhar, escritórios de pequenas firmas, cassinos clandestino maquiados de clubes e toda uma ocupação menor. Totalmente deteriorado e descaracterizado.

Nos anos 60 foi cenário de um crime nunca desvendado, o assassinato do garoto Davilson, violentado, estrangulado e jogado no poço do elevador.

Em 1975, após grande apelo popular, protestos da imprensa e de setores profissionais, inicia-se a obra de reforma. Depois dela o prédio voltou a ser valorizado e tombado em 1992 pelo DPH, agora abriga setores da administração pública como a EMURB, COHAB, SEHAB, SEMPLA…
Uma nova reforma feita pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, permitiu descobrir vários afrescos e pinturas originais da época da construção que serão objeto de restauração pelo artista plástico Luis Martin Sarasá.
E continua o "banho" de cultura. Ande pelo terraço e continue dando asas a imaginação. Ele é amplo, muito largo entre as construções e o parapeito e deve ter sido palco e muitos amores, muitos dramas. Gente bonita, rica, culta convivendo sobre uma cidade em efervescência, só podia ser protagonista de histórias e histórias.

Olhar desse terraço vai dar uma idéia de um pedacinho da cidade que vale a pena ver e resgatar porque estaremos recontando a história de São Paulo.

Durante muito tempo o Martinelli foi considerado o prédio mais alto da cidade, só perdeu sua posição em 1947 quando o edifício Altino Arantes, sede do Banespa, com 36 andares e 161metros de altura foi inaugurado. Vale a pena visitar.
E numa visão de progresso, ao lado do Banespa, o novo prédio do Santander-Banespa todo preto e redondo, numa arquitetura moderna e já com seu heliporto indispensável. Um heliporto privativo, "adornado" por cavaletes para indicar que só podem pousar helicópteros autorizados. Questão de segurança

Agora, a visão do Edifício do Banco do Brasil, que junto com o Martinelli e o Banespa constituem os três gigantes de São Paulo. Bela visão dos três pode-se ter do cruzamento da rua Libero Badaró com a Av. São João, bem ao pé da ladeira São João.

Ainda do terraço o cenário à vezes é belíssimo, outras vezes deprimente, outras vezes simplesmente feio.

Dominando em altura, depois do Banespa, o prédio do Unibanco.
Uma rua cumprida e estreita é a rua São Bento, mostrando bem o seu traçado antigo, dos primeiros tempos da cidade, quando ligava o Mosteiro de São Bento ao Largo São Francisco para maior contato entre os monges beneditinos e franciscanos.
Visão da Igreja de Santo Antonio na praça do Patriarca.
A Bolsa do Café, uma parte da Secretaria da Fazenda (na Av. Rangel Pestana), o Parque Dom Pedro II com seus viadutos e cruzamentos substituindo uma Várzea do Carmo anterior.
Mais ao longe, o Edifício São Vito, uma favela vertical, deteriorado e agora esperando uma reforma.
A cúpula da Catedral e o Palácio da Justiça podem ser identificados.
Um pedaço moderno de São Paulo – edifício do Metrô e um testemunho dos primeiros anos da cidade, o Mosteiro de São Bento. Agora, acrescido do Colégio São Bento.
Edifício Mirante do Vale, o mais alto edifício da cidade que nem é conhecido como tal porque erguido em um espaço mais baixo foi engolido pelos que estão em situação mais elevada.
Belíssima a visão do Vale do Anhangabaú, no momento em que ele cruza a Av. São João e que em sua última urbanização, prestigiou pedestres, com calçadão, fontes, água jorrando para refrescar a aridez de uma cidade em constante vai e vem de trabalho. Visão da comprida Av. São João até onde a vista alcança em direção à oeste da cidade.
Ao longe, um cantinho do Mercado Municipal, a torre da Estação Júlio Prestes.

Uma pausa para digerir e assimilar essa over dose de história da cidade e aventura de ler nas alturas continua.

O primeiro encontro da Leitura nas Alturas foi no dia 06 de outubro, uma quinta feira, encontro que se estendeu das 14h às 19h. O livro escolhido foi "A Hora da Estrela" de Clarice Lispector. Outros encontros foram em 10 de novembro, com a leitura e análise do livro "Macunaíma" de Mário de Andrade. Em 24 de novembro o livro lido e analisado foi "Sagarana" de Guimarães Rosa. Em 1 de dezembro a leitura e análise foi do livro "Memórias de um Sargento de Milícias" de Manuel Antonio de Almeida e em 8 de dezembro, foi escolhido "Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis. Sempre das 14h às 19h.

Esperamos que em 2006 esse projeto cultural de São Paulo continue.

Sugestão – Leia uma ficção de Marcos Rey – "O Último Mamífero do Martinelli" escrito em 1993 – Editora Ática