Na Vila Maria dos anos 30 do século passado, a precariedade das condições de vida do bairro, estagnada em termos urbanísticos desde a sua fundação, causava aos “vílamarienses” transtornos e padecimentos que, com o crescimento acelerado da população, tornavam-se cada vez mais insuportáveis. A insatisfação generalizava-se e a população, estimulada pelas emergentes lideranças políticas surgidas no bairro, começa a mobilizar-se e a reivindicar seus direitos.
O movimento cívico, então iniciado, foi o primeiro grande passo na transformação do sofrido e esquecido arrabalde, um verdadeiro "subúrbio" de Santana, é hoje o próspero bairro de Vila Maria, um dos mais promissores da capital dos paulistas. Esse movimento, se não conseguiu atingir todos os seus objetivos, teve o mérito, entre outros, de conscientizar a população de sua força política e o de arraigar a noção de cidadania. A ideia era reunir um grupo de pessoas influentes, dinâmicas, esclarecidas, dispostas a lutar por melhoramentos para o bairro e, sobretudo, pleitear junto ao poder público a separação administrativa com relação ao subdistrito de Santana ao qual Vila Maria ainda estava subordinada. Assim, depois de alguns anos de luta, pelo decreto 9.859-A, de 5 de dezembro de 1.938, assinado pelo interventor Dr. Adhemar Pereira de Barros, a Vila Maria torna-se o 17° sub-distrito da Capital.
Esperavam os integrantes do Centro Cívico, criado pelo movimento, que, uma vez decretada a emancipação política do bairro, a posse do Cartório de Registro Civil ficasse com um deles. Adhemar, contudo, nomeou como responsável pelo cartório não um “vilamariense”, mas o Dr. Casimiro Pinto Neto, secretário particular de sua esposa, dona Leonor Mendes de Barros. Em fevereiro de 1939, foram nomeados também o Dr. Paulo dos Santos Pinto para Oficial Maior desse cartório e, para Juiz de Paz, o Dr. Frederico Ferrigno, que foi também o primeiro médico a fixar residência em Vila Maria.
Por curiosidade e também para registro, vale lembrar aqui alguns aspectos da vida do Dr. Casimiro Pinto Neto, primeiro Serventuário de Justiça de Vila Maria. Nasceu em Cachoeira Paulista, mas foi criado em Bauru onde sua mãe, Anita dos Santos Pinto, foi coletora federal de impostos e, diga-se de passagem, a primeira mulher a exercer essa função no Brasil. Como não poderia deixar de ser, quando estudante da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, Casimiro ganhou o apelido de "Bauru". Na roda dos boêmios estudantes de direito, "Bauru" destacava-se pela simpatia e comunicabilidade, que exibia ostensivamente. Nas noitadas de boêmia, para aplacar as contrações do estômago exigente, solicitava ao rapaz do balcão do Ponto Chic que lhe fizesse um lanche, cujos ingredientes ele mesmo indicava: pão francês sem miolo recheado com fatias de presunto e queijo prato, levemente aquecidas numa chapa e duas rodelas de tomate não muito maduro. Os colegas de estudo e boêmia experimentaram e… gostaram. Quando queriam lanchar pediam um sanduíche igual ao do "Bauru". Com o tempo o pedido foi simplificado. Pediam eles e pedimos nós até hoje, simplesmente um "bauru". Recentemente, dia primeiro de agosto de 2007, o Ponto Chic (Largo do Paissandu, 27) recebeu do CONTUR o selo de certificação para o seu famoso sanduíche.
Casimiro Pinto Neto notabilizou-se não somente como advogado e criador do "bauru", mas também como radialista. Ele foi, em São Paulo, o primeiro apresentador do noticioso radiofônico "O Repórter Esso". Para os mais jovens, que não experimentaram a ventura de terem sido, um dia, despertados pelo vibrante som das cornetas do inconfundível prefixo musical que anunciava cada apresentação daquele radiojornal, aqui vão umas poucas informações.
Durante a Segunda Grande Guerra, mais precisamente em 1941, a “Standard Oil Company of Brazil” contratou os serviços telegráficos da UPI (United Press International) com a finalidade de criar um jornal radiofônico ao estilo norte-americano, com noticias rápidas sobre a guerra, já transmitido nas principais capitais do mundo. No Brasil esse noticioso foi ao ar, pela primeira vez, em 28 de agosto de 1941, pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro e, logo a seguir, pela Rádio Record de São Paulo, com "Bauru" ao microfone. Dai por diante, o povo brasileiro ligado na Radio Nacional ou na Record, a cada instante, podia ter sua programação habitual interrompida por aquele inconfundível prefixo musical, para dar lugar ao que logo se tornou no popularíssimo Repórter Esso, ágil noticioso radiofônico, campeão de audiência, que se auto intitulava "o primeiro a dar as últimas", ou ainda "a testemunha ocular da história".
Após a guerra o Repórter Esso continuou no ar ainda por mais de vinte anos, mantendo sempre o seu elevado padrão jornalístico e sendo, invariavelmente, apresentado por locutores de vozes poderosas e perfeita dicção, fazendo a transmissão do noticiário internacional e local de significado relevante. As vibrantes cornetas calaram-se no dia 31 de dezembro de 1968, quando Roberto Figueiredo, no Rio de Janeiro e Dalmásio Jordão, em São Paulo (pela Rádio Globo), fizeram a última apresentação do popularíssimo radiojornal.
Salve Casimiro Pinto Neto (o "Bauru") Heron Domingues, Luis Jatobá, Kalil Filho e todos quantos que, em inesquecíveis apresentações, emprestaram suas vozes de ouro ao agora saudoso Repórter Esso.
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