Caminhando perpendicularmente ao vento

Em um treinamento que dei recentemente, em Salvador, um treinando perguntou-me o que era "perpendicularmente ao vento". Parei pra dar a resposta (o tema era energia eólica, parte do treinamento macro sobre sustentabilidade), mas mal cheguei a abrir a boca quando alguém cantarolou "caminhando contra o vento"; senti a inutilidade da resposta técnica e disse apenas que era simplesmente isso: “não caminhar contra o vento nem a favor dele, mas perpendicularmente. Só isso!”.

Ao sairmos para o cafezinho, o rapaz que fizera o questionamento se aproximou e disse "porque ninguém explica as coisas assim como você fez, de forma clara e simples, sem ‘enrolação’?". Bom, essa pergunta eu achei mais difícil e preferi falar do tempo, que ameaçava chover, do sabor do café, extremamente adocicado, porque explicar sobre pessoas, seu modo de agir, isso tudo é bem mais complexo do que explicar o vento e suas "invariantes".

De retorno a São Paulo, caminhava pelo Ibirapuera (o que é mais paulistano que isso?), quando fui surpreendido por uma aragem. Árvores pequenas dobravam-se, pássaros buscavam abrigo, pessoas apertavam o passo. Procurei observar melhor o que acontecia, esquecendo conscientemente que houvera uma alteração meteorológica. É estranha essa percepção de que a natureza toda se transforma quando as coisas se alteram e as pessoas sentem que o mundo, o estreito mundo que as cerca, pode desabar (o que não era o caso da minha pequena aragem, claro). Passam a caminhar perpendicularmente ao vento e já não as encanta essa brisa suave da manhã.

E-mail: [email protected]