O Motorneiro Palmeirista

Na década de 50 o meio de transporte predominante no trajeto Praça João Mendes – Santo Amaro – Praça João Mendes era o bonde elétrico.

Eu, então um jovem estudante com doze anos, morador em Indianópolis, usava diariamente esse transporte para me locomover até o Colégio Ypiranga, de propriedade da família Sansigolo, na Rua Domingos de Moraes, em Vila Mariana, onde cursava o Ginasial, assim era chamado o curso logo após o primário, hoje fundamental.

O trajeto dessa linha, que se iniciava na Praça João Mendes, seguia pela Avenida da Liberdade, Rua Vergueiro, um pequeno trecho da Domingos de Moraes até o Largo Ana Rosa e, na esquina do Cine Cruzeiro, seguia pela Rua Conselheiro Rodrigues Alves até o Instituto Biológico, no Ibirapuera. Desse trecho em diante até a entrada de Santo Amaro, o bonde corria sobre trilhos escorados por dormentes de madeira sustentados por pedras britadas. Depois do Instituto Biológico começavam as chamadas "paradas do bonde".

A primeira era, Chiquinha Rodrigues, em razão da Escola de Ensino Fundamental Chiquinha Rodrigues, homenagem à educadora e escritora, ali localizada. Seguia-se a parada Comercial Construtora, em razão de uma empresa de construção no local, Ibirapuera, Moema, Largo Franco, Indianópolis onde tinha o chamado balão do bonde, tendo de um lado a Avenida Jandira e de outro a Avenida Rouxinol. Ali o bonde não seguia até Santo Amaro, ele fazia a volta para retornar ao centro da cidade. Depois de Indianópolis seguiam-se as paradas Vila Helena, onde hoje está instalado o Shopping Ibirapuera, em cujo terreno, na época, era de propriedade da Fiação e Tecelagem Indiana, depois seguiam-se as paradas Casa da Força, Campo Belo, Piraquara, Brooklin Paulista, onde havia outro balão de retorno, Petrópolis, Alto da Boa Vista, Floriano e finalmente Deodoro. A partir daí o bonde seguia até Santo Amaro pela Adolpho Pinheiro, a princípio com os trilhos encravados em um trecho de paralelepípedos e depois encravados no asfalto, até o largo Treze de Maio, seguindo até os Largos São Sebastião, e do Socorro.

Todas essas paradas tinham balões de retorno. Isto quer dizer que nem todos os bondes que iam até Santo Amaro desciam a Alameda Santo Amaro até o Largo São Sebastião e a Benedito Fernandes até o Largo do Socorro. Em cada uma delas havia o balão de retorno para voltar ao Centro. Frise-se que à época Santo Amaro era município e, por esse motivo, os bondes dessa linha traziam a placa indicativa do trajeto como sendo Santo Amaro – São Paulo.

Localizei esse cenário onde reinava absoluto no carinho dos usuários um velho motorneiro, com forte sotaque italiano, fã ardoroso da Sociedade Esportiva Palmeiras, razão de seu apelido de Palmeirista, como se dizia na época.

Nas paradas o comentário era sempre, – Lá vem o bonde do Palmeirista. Nós, garotos, não sabíamos ao certo seu verdadeiro nome, mas nos bastava, Palmeirista. A alegria de tomar o bonde do Palmeirista era tanta que às vezes esperávamos passar um ou dois bondes para viajar com ele. Principalmente nas segundas feiras em que o Palmeiras tivesse perdido no domingo. A gozação, sempre de um cunho gaiato, sem ofensas bem aceita entre nós e ele, que da mesma forma revidava quando o Palmeiras ganhava de nossos times. Naquela época era comum aos motorneiros pedirem aos passageiros que dessem um passo a frente pra desobstruir a porta traseira dos bondes por onde se entrava. Os motorneiros diziam: – “Senhores passageiros, por favor, vamos dar um passinho à frente”. Todos diziam assim, menos o querido Palmeirista. Ele costumava dizer: – “Senhores passageiros, por favor, vamos retroceder para a frente”. Todos riam e acabavam colaborando.

Seu bordão poderia, desde aquela época, ser um profético indicativo das muitas situações que o país viveria ao longo desses anos. Quantas vezes não se pensou em dizer que o país esteve num retrocesso pra frente. Saudades da São Paulo da garoa e daquele bonde do Palmeirista.

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