Meu pai trabalhava de noite e dormia de dia, aliás, dormia pouco, em razão da poluição sonora produzida por uma metalúrgica, especializada na produção de extintores contra incêndio.<br><br>A metalúrgica instalada na Avenida Carioca fazia fundos com o nosso terreno na Rua Albino de Moraes, enfim tubos de ferro de vários tamanhos eram repuxados no torno, mediante o uso de potentes maçaricos, que além do barulho infernal produzia também a poluição do ar.<br><br>Digo isso, porque trabalhei por alguns meses nesta empresa e presenciava o trabalho dos torneiros-repuxadores, enfim era impossível dormir de dia. Reclamar aos proprietários não ia adiantar, tivemos que conviver com essa situação até o dia 21 de novembro de 1962.<br><br>Antecipadamente o meu pai comprou um terreno na Rua Prof. Lucas Nogueira Garcez, Jardim Botucatu (Saúde) e no dia 22 de novembro de 1962 mudamos para a nova casa. Foi um dia festivo, isso porque compramos a primeira geladeira da vida. Uma Gelomatic que durou mais de 30 anos, e também compramos a primeira TV-Siler, com uma imagem fabulosa.<br><br>Na época esta rua findava numa grande mata virgem, onde nascia uma mina e que no bairro Sacomã, próximo do castelo da família Samarone, recebia o nome de "Tanque da pólvora", bem próximo da reserva florestal do estado onde estão abrigados, Zôo, Jardim Botânico, Simba Safári, etc. "Que beleza, respirar o ar puro das matas, cheiro de relva".<br><br>Na medida do possível íamos ampliando a nova residência aumentava uma sala, mais um quarto, outro, não podia faltar o espaço para construir um bom fogão de lenha, aliás, o meu pai colocava um pouco de açúcar na massa com cimento para dar mais resistência, para não rachar a parede.<br><br>Quando roçávamos o terreno muitas cobras a gente encontrava, os vizinhos diziam que eram cobras sem veneno, cobras de vidro, isso em razão de que era só dar uma pancada no corpo dela e a mesma quebrava em várias partes.<br><br>Anos depois meu pai resolveu trocar o assoalho por tacos, daí foi preciso retirar as tábuas de peroba e aterrar o terreno para nivelar. Já no fim do trabalho o meu irmão caçula viu algo estranho preso numa viga de apoio e cismou de tirar de lá, achando que aquilo seria uma meia de mulher, por sorte o meu pai deu um empurrão nele, o que estava ali era uma cobra coral, aquelas bem coloridas, que dependendo da espécie se picar pode ser fatal. <br><br>Meu pai não tinha medo de répteis, arrumou um meio de capturar a cobra que depois foi enviada ao Instituto Butantã.<br><br><br>e-mail do autor: [email protected]