Não, não é o que estão pensando.
Era 1963, eu, dezenove anos, gerente do Restaurante Planalto, ao lado da Kibelândia, que por sua vez encostava com o também famoso Bar do Jeca, ou seja, na esquina mais falada de São Paulo (São João com a Ipiranga ), do lado direito, paredes meia com o Restaurante, o Cine Ipiranga que vivenciava uma época esplendorosa. Normalmente nos finais de semana, o Benedito, gerente da sala, que no seu Smoking impecável se esforçava para atender a fila ( que muitas vezes se alongava pela av.Ipiranga e São João até ao Largo Paissandú) de pais para levarem a criançada ao cinema.
Época também que as "avant-premiéres" (Pré-estreias) no Cine Ipiranga, tentavam se igualar à entrega do Oscar, com tapetes vermelhos, holofotes cujos fachos de luz iluminavam o cêu; convidados especiais de trajes a rigor. Um Luxo !!!
Vizinho que era do cinema, não perdia um filme (aliás em todos os cinemas da região sempre marcava presença, não pagava ingresso, tinha carteirinha permanente gratuita, das três principais redes cinematográficas).
Na pré-estréia de Lampião, o Rei do Cangaço, lá estavam ao vivo , o diretor Carlos Coimbra, Vanja Orico (Maria Bonita), Leonardo Villar, Dionizio de Azevedo e outros mais.
Outra pré de sucesso foi Seara Vermelha de Nelson Pereira dos Santos. Nesta, como sempre, o Benedito, ao lado do Inspetor Mário, que no seu uniforme de gala da Guarda Civil do Estado de São Paulo, junto com seus comandados, prestavam as honras ao Sr.Dr. Ademar de Barros, Governador do Estado de São Paulo, à Dna.Leonor Mendes de Barros e demais ilustres convidados e convidadas, impecáveis nos seus smokings e vestidos de noite.
O filme apresenta a miséria e a degradação humana – no nordeste brasileiro – em todo o seu macabro teor. Enfim, um DRAMA.
Silêncio na sala comovida e até revoltada com o decorrer da trama; eis que um AHHHHHHHHH de espanto prolongado e uníssono ressoou, junto com algumas gargalhadas, para desespero das damas.
Na tela o médico, bronquiado com a enfermeira, proferiu estas terríveis palavras, " VÁ À MERDA, SUA VACA " .
Sentadas ao meu lado, duas senhoras e outras à minha frente, enfiaram o rosto nas suas belíssimas estolas de peles, e durante muito tempo não de atreveram a levantar a cabeça …
Havia VERGONHA , lá pelos idos de 1963 .