O Homem do Sapato Branco

Quem pensa que esse negócio de pegadinha na tevê e de táxi de apresentador é coisa séria, tá muito enganado! É tudo pura armação! Coisa montada e pré-combinada pela produção do programa com pessoas conhecidas.

Tanto é verdade que uma amiga minha participou de uma dessas armações há um tempo atrás. Ela tomou aquele famoso táxi com câmera oculta e tudo de direito. O lance era que no meio da corrida aparecia uma ratazana no banco de trás dos passageiros, para assustá-los e filmá-los com aquela cara de espanto e pavor. E tudo previamente definido e bem ensaiadinho, inclusive com rato de pelúcia e tudo mais.

Mas esse negócio de inventar estória pra televisão, não é coisa nova! Eu até cheguei a ajudar a criar uma estória para um programa, certa vez. Lembra do "O Homem do Sapato Branco", com o Jacinto Figueira Junior, pois é…

Costumávamos almoçar todos os sábados na cantina do Nicola, lá no Bexiga. Aquela feijoada de sábado já fazia parte de um ritual. Era quando encontrávamos amigos para rodas de bate-papo, sempre regadas com muita caipirinha e cerveja, acompanhando a feijoada da Dona Santa, mãe do Nicola.

Quem disse que a italiana não entendia de feijoada? Posso assegurar que era uma das melhores de São Paulo. Bem melhor que a do Bolinha, só não tão famosa e infinitamente mais barata, de forma a caber nos nossos bolsos. Preço mais que honesto!

Sei que a feijoada da Dona Santa era um religioso programa de sábado. Por tudo, pela feijoada, pela caipirinha e principalmente pelos amigos.

Como a cantina ficava localizada entre muitos estúdios de gravação, o povo do ramo, atraído pela fama da feijoada e pela simpatia do Nicola e da Dona Santa, também acorria ao local. A gente ali, que não era da área, acabava, de tanto freqüentar se familiarizando com aquele pessoal. E entre eles, às vezes aparecia por lá o Jacinto Figueira (lembra dele?), sem o sapato branco, que acho que poupava para usá-lo só no programa. Até um dia, depois de muita caipirinha na cabeça, perguntei a ele se o tal sapato era de pelica. Ele me olhou feio e não respondeu! Devia estar com o sapato furado, inclusive!

Mas numa dessas idas do Jacinto à cantina, depois da feijoada marcando presença no estômago de tudo mundo e aquela sonolência típica das sonolentas tardes de sábado, ele se mostrou preocupado com o quê apresentar no seu próximo programa, que iria ao ar na quarta-feira seguinte.

– Pó, to sem assunto nenhum pro próximo programa. Vocês bem que podiam me ajudar!

– Jacinto, porque você não leva o caso do Fuinha, o encanador aqui vizinho – sugeriu um dos nossos amigos.

– Diz lá, como é isso aí.

Eu até que conhecia o tal Fuinha. Aliás, eu e todo mundo por ali, pois de vez em quando o Fuinha aparecia na cantina pra desentupir algum cano, mas não sabia de nenhuma história dele. Então nosso amigo começou a contar o que se sucedia.

Acontece que o Fuinha tinha seu negócio em um salão alugado de um português chamado Manuel (redundante). E já fazia uns sete meses que não pagava o aluguel. Daí que o português, dia sim dia não, aparecia pra receber e saia de lá sempre com as mãos abanando e promessa de pagamento no dia seguinte.

– Bem e daí – disse o Jacinto. Até aí nada de novo, nada que possa prender a atenção do telespectador. Mais uma estória banal, igual a de milhares de micro-empresários neste Brasil. Quem não ta passando por algum aperto financeiro?

Nosso amigo, continuou:

– Não, você não entendeu nada. A gente pode criar alguma coisa em torno disso. A gente pode dizer que o Fuinha tem uma maneira pouco ortodoxa pra quitar a dívida.

– Como assim? – retruca o Jacinto e a gente só ouvindo.

– Vamos dizer que o Fuinha que é casado a pouco tempo, e sem dinheiro pra pagar a divida, ofereceu a esposa pra fazer um "servicinho especial" pro Seo Manuel.

Todo mundo achou meio absurdo aquilo, mas o Jacinto não. Parecia até que o nosso amigo já tinha toda a história na cabeça. E o Jacinto se entusiasmou com a idéia e pediu para ele detalhar o plano.

Só sei que chamaram o Fuinha, que ficava no salão quase ali ao lado e ligaram para o Seo Manuel.

Quando os dois chegaram, foram direto cumprimentar o Seo Jacinto, com todo o respeito. Acharam que ele, mesmo sem o sapato branco, iria conciliar a situação, ali naquele momento. Que ele iria, na pior das hipóteses, quitar a divida do Fuinha. Mas, não!

Começaram então a detalhar o plano para eles. A idéia era exatamente levar ao programa aquela situação: Fuinha, inquilino devedor; Seo Manuel, o cruel senhorio; e uma suposta esposa do Fuinha, oferecida como moeda de troca pelo aluguel (ou aluguer com dizia o Seo Manuer) em atraso.

Pro Fuinha, que estava na pior, até que tudo bem e a mulher nem existia mesmo. Pro Jacinto, que estava mesmo sem história, apesar daquela não ser das mais entusiasmantes, até que tudo bem também. Agora pro Seo Manuel….aquilo tudo não soava muito bem não.

– Ai Jisuis! Sou católico! Como vou aceitari isso tudo! Minha cara aparecendo na televisão como um proxeneta? Como vou explicari pra Maria e pros filhos?

– Ah, Seo Manuel! Os tempos são outros! E afinal, todos saberão que é brincadeira!

– Todos não! Só eu e vocês aqui!

– Mas o que importa o resto do mundo! Quem conhece o senhor? O programa nem passa em Portugal, onde está quase toda a sua família. E ademais o senhor vai por a mão na grana do aluguel atrasado. Não é isso que preocupa o senhor? Não é mesmo, Jacinto?

Seo Manuel coçou a cabeça com aqueles poucos cabelos brancos, refletiu um pouco e disse:

– É, pensando bem. Pelo menos, acabo recebendo o aluguel. E chegando em casa é só explicari pra Maria que isso tudo é coisa da televisão. E acho até que eu sempre tive mesmo um lado de artista de novela, que nem o Antonio Maria (Jonas Mello, no papel de imigrante da terrinha, na novela da Tv Tupi, Meu Rico Português). Acho que a Maria vai até gostari!

Bem, só sei que na quarta-feira estavam todos lá no estúdio da tevê, encenando aquele circo todo. O Fuinha, o mau inquilino, o Seo Manuel, o rígido senhorio e o Jacinto, agora de sapato branco e tudo mais. Todos naquele barraco armado, como tudo que parece ser na telinha. E o Seo Manuel até que se saiu bem na estória. Agora se a Maria gostou, ninguém soube!