Nos anos 60 era moda em São Paulo uma tal de festa ‘Venha como estiver’. Nossa turma também teve uma e foi um grande sucesso. Quem se lembra? A festa ‘Venha como estiver’ trata-se do seguinte: um grupo convida outro para uma festa ás 6 da tarde, por exemplo. No entanto, às 3 horas da tarde o primeiro grupo passa nas casas do grupo convidado e praticamente leva os convidados à força muito antes da hora, fazendo o que estiverem fazendo e vestidos como estiverem vestidos, seja roupa velha lavando o carro ou pijama, tirando uma soneca.
A confusão que aprontamos foi tão grande que até hoje não sei como nada pior aconteceu. Usando uma perua volks, nós, um grupo de cinco meninas, saímos à busca dos que seriam ‘seqüestrados’.
Um dos rapazes, o Paulo, foi trazido vestindo um macacão coberto de graxa, arrastado para a perua e colocado praticamente debaixo do banco para que quando chegássemos à segunda casa a próxima ‘vítima’ não percebesse. Saímos dali para São Bernardo do Campo onde moravam o Luís Roberto e o Elias, que nos viram chegando e correram, porém entramos por uma janela, caindo bem em cima da cama do pai deles, que dormia. (Imagine só o susto deste bom homem). Trouxemos um dos rapazes (Luís) de roupão e o outro (Elias) apenas de calça e uma toalha nas costas. A terceira vítima, o Sam, morava na Vila Prudente e era a minha paixão, este foi carregado por pernas e braços e colocado na Kombi com os demais. Um amigo dele que estava apenas passando, foi levado junto aos gritos.
A quarta ‘vítima’ foi um rapazinho quieto, baixinho, chamado Reginaldo, este foi pego na Rua Bueno de Andrade, na Aclimação. Sua mãe, que estava na porta, pensou que se tratasse de um seqüestro de verdade e saiu correndo e chorando atrás do carro. O Reginaldo conseguiu abrir a porta da Kombi e fugir na Praça João Mendes, mas o Luis (de roupão) e o Elias (com uma tolha nas costas) saíram em perseguição, gritando ‘pega ladrão!’ Até hoje não sei como a polícia não se envolveu nisso.
Ainda levamos alguém de calça de pijama (Oswaldo) e de calção (Walter). Meu melhor amigo (David) foi pego muito bem vestido!
A festa em si foi no quintal da casa da Sônia, que já estava decorado e a comida já pronta, inclusive umas balas recheadas de azul de metileno, que deixava a boca desta cor, e bolinhos de pimenta vermelha. Trancamos o portão com a chave para que ninguém saísse, mas eles tentavam subir o muro alto e quase caíram na casa vizinha, imagine a cena, uns 8 rapazes de uns dezessete anos, vestidos de pijama, toalhas, roupão, macacão coberto de graxa subindo nas mãos uns dos outros para alcançar o alto do muro.
Já se foram muitos anos, mas aquela festa maluca ficou na minha memória. Não sei onde andam o Elias e seu irmão Luís, o Reginaldo nunca mais vimos desde 1970,com o Sam me encontrei novamente depois de muitos anos,conheci sua linda família e ele conheceu a minha. Um dos rapazes morreu num acidente de carro, outro mora nos Estados Unidos e se casou com uma das meninas do nosso grupo. O David morreu do coração no ano passado. No entanto, todos estão bem vivos na minha mente, e o dia que vieram á nossa festa ’Venha como estiver’.
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