De repente sumiu o balcão

Quem é da geração 1940-50 se lembra das mercearias ou armazéns de secos e molhados. Muitos estabelecimentos ganhavam duplamente, pois na fachada colocavam: “Bar e Mercearia”; era o que acontecia com a mercearia Algarve. <br>Seu José vendia tudo referente à comida, bebida e outras coisas, além de também servir bebida no balcão. Seu José justificava: “Na mercearia a pessoa vem somente duas vezes numa semana e nada mais, no bar tem gente todos os dias e, outra, pinga dá muito dinheiro”.<br>A prova disso é que um dia a mercearia foi assaltada já à noitinha, e todo o dinheiro do caixa foi roubado junto com os pertences dos clientes. Uma hora depois Seu José foi contar o dinheiro do caixa e já tinha cento e dez cruzeiros. Foi aí que alguém exclamou: “Como dá dinheiro essa maldita cachaça!”. Era Zé Caipirinha, que seu normal era encher a cara de cerveja, com umas pingas para quebrar o gelo. Desculpa de pingão.<br>Na mercearia se vendia tudo a granel. Um quilo de arroz, feijão, farinha de trigo, legumes, verdura, até manteiga ele vendia desta forma. A manteiga vinha em latões de alumínio, e era vendida também nas feiras. Para se retirar a manteiga usava-se uma enorme espátula de madeira, que mais parecia uma colher gigante, e para o cliente levar tinha que ser em papel reforçado e plastificado. <br>Tinha mais ainda: corda de poço, carretilha, sarilho, bomba de flit, detefom, álcool 92 e álcool Zulu, lamparina a gás e a querosene, o que vendia bastante porque naquela parte da Vila Olímpia e o Brooklin Novo não tinham eletricidade nas casas. Só veio em 1953. <br>Tudo era pesado naquela velha balança Filizola. Um dia apareceu um sujeito e comprou três metros de corda de poço. Brincando a mulher do seu José, perguntou: “Vai se enforcar?” No dia seguinte ele amanheceu pendurado no travessão do campo do Juventus da Vila Olímpia.<br>Tinha também fumo em corda, que picavam com enorme facão, e a palha. Os famosos cigarros de palha. Seu Manoel, mineiro de Guaxupé, era o maior freguês do cigarro de palha. Sua diversão depois da janta era ficar ouvindo rádio, picando fumo e tomando sua “Tatuzinho”. Deliciava-se com a propaganda do rádio: “Ai Tatu, tatuzinho, me abra a garrafa e me dá um pouquinho”. <br>Eram tempos diferentes, todos estavam acostumados a ficar no balcão pedindo as mercadorias, que eram pegas uma a uma. E depois se ouvia aquele tilintar da máquina registradora somando os preços.<br>Um belo dia apareceu um armazém totalmente diferente, tudo bem arrumado, com prateleiras distante uma das outras um metro e meio, Prateleiras já era. Agora são gôndolas. Não tinha ninguém servindo. Eram os próprios clientes que pegavam as mercadorias cada uma com preço marcado. Era só ir aos caixas na saída do estabelecimento.<br>Era o, Peg Pag, o primeiro dessa nova safra de estabelecimentos. O primeiro Peg Pag era na Vila Mariana e o segundo no bairro do Itaim Bibi, Rua Joaquim Floriano esquina da Avenida São Gabriel. Anos mais tarde vi outro estabelecimento igual ao Peg Pag, era na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, logo depois da Rua dos Bombeiros, à esquerda para quem estava subindo. Na fachada, escritas em sentido vertical, umas placas redondas cada uma com uma letra que formavam o letreiro: Sirva-se.<br>Virou febre, pois em todo lugar podia se ver um. As mercadorias tinham seus preços marcados por uma maquininha. Quando a inflação passou a ser galopante era comum aquele barulho do tic tac dos preços sendo remarcados.<br>Hoje em dia, com o avanço da tecnologia, não há mais necessidade dela, pois já tem o código de barras e o caixa tem a balança acoplada, o que facilita a rapidez do atendimento, não tendo mais aquela fila enorme pela lentidão. Tinha fila também para levar os vasilhames e pegar a senha, para não deixar depósito a ser devolvido na entrega do vasilhame. Os supermercados tiveram suas áreas aumentadas, e passaram a ser chamado de hipermercados, onde se vendem produtos eletrônicos, de todo tipo. Virou uma loja de departamento. <br><br><br>e-mail do autor: [email protected]