Utensílios estranhos

Muitos objetos de uso pessoal e doméstico que eram usados há algum tempo atrás já fazem parte dos museus, mas tenho a impressão de que alguns foram esquecidos de tal maneira que nem esse privilégio tiveram. Provavelmente não são lembrados nem pelas pessoas que usaram.

Existem até alguns que teimam em permanecer por serem considerados exóticos ou marcas registradas de elegância e posição social.

Dentre os mais populares estão os suspensórios, chapéus, galochas, bengalas, gravata borboleta, abotoaduras e mais uma centenas deles.

Dentre os mais raros, e em completo desuso, estarão os fogareiros primus, ferros de passar roupas a carvão, panelas de ferro, pés de ferro, máquinas manuais de moer carne, penicos esmaltados, rádios a válvulas, toca discos ou vitrolas que mais pareciam guardarroupas, telefones, e mais uma infinidade de objetos que foram melhorados e sendo encostados com o tempo.

Recordo-me de uma estante metálica, pintada com tinta aluminizada, composta por quatro ou cinco varetas, e ganchos em formato de anzol eram introduzidos nessas varetas e podiam ser deslocados, perfazendo a distância necessária para que neles se acomodassem panelas, caldeirões, bules, canecas, e tudo que tivesse uma alça, ou orelha, para se enganchar. Qualquer casa tinha uma, ou mais, dessas prateleiras nas cozinhas, mas com a chegada dos armários (guarda louças) elas foram completamente esquecidas.

Porém, o mais curioso de todos os utensílios domésticos usados no passado (a mim particularmente) com certeza era um que ficava dependurado atrás das portas dos quartos. Era composto de uma vasilha de alumínio (parecia mais um funil gigante) com uma mangueira de borracha preta acoplada no bico de saída desse funil, e uma torneira de plástico (também preta) na outra ponta da mangueira. Não se tratava de uma torneira qualquer, ela tinha formas e contornos apropriados para o serviço a que se destinava. Eu nunca soube o nome correto desse artefato, e quando perguntava para os mais velhos para quê ele era utilizado, a resposta vinha em voz baixa, como se fosse proibido dizer, e diziam que "era para fazer lavagens". Se fosse usado nos dias atuais, garanto que qualquer criança diria que era um regador para fazer lavagem intestinal, e saberiam até os detalhes de seu funcionamento, mas naquele tempo havia um excesso de vergonha, ou escrúpulos, e quase tudo era proibido, até pensar.

Havia também uma seringa de borracha (muito grande e alaranjada) com um objeto de formato estranhíssimo acoplado, usado para lavagem intima das mulheres. Era tão bem guardada e escondida que somente as crianças mais atrevidas e curiosas conseguiam encontrar. Certa vez, por ter perguntado a minha mãe o que era aquilo, tomei vários puxões de orelha.

Com certeza outros utensílios serão lembrados pelos nossos amigos comentaristas, e esse é exatamente o espírito deste maravilhoso site.

Um forte abraço a todos.

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