Uma surra prazerosa

O jogo está marcado pra domingo, ensolarado mês de fevereiro de 1948, às 15h.
Estou escalado, como sempre, no "segundão", do São Vito, por demérito, pois, além de não ser aquela maravilha, o técnico é o Angelo, "Joreca", meu primo que, como é normal, nada melhor pra te ferrar do que um parente bem próximo. O consolo é que Rafael, futuro craque do Corinthians, também está escalado, sua mãe não quer que ele volte tarde pra casa. O jogo é contra o poderoso, temido, turbulento e briguento Mocidade Glicério; local: várzea do Glicério, na área localizada atrás da Igreja da Paz, do cine Itapura e do Parque Xangai e ao fundo os muros da estação de energia elétrica da Light. Vou atuar de "alfo direito".
Pra ir lá, dispensamos condução, 2 ou 3 km, se tanto. É só atravessar o Parque D. Pedro II. O campo, terrão puro, áspero, vegetação inexistente, lembrando superfície lunar. Pra vestir o fardamento, o "vestuário" é atrás das traves, sem redes, todos já vem de casa com o calção debaixo da calça; pros menos avisados, faz-se uma roda pra ele tirar calças, cuecas e vestir o calção.
Antes do início, numa cortesia que lembra o carrasco oferecendo um prato como última refeição ao condenado, antes do golpe final, o capitão deles obsequiou-nos com uma flâmula, com as armas do clã receptor, comum nos embates históricos; somos visitantes.
Assustadores são os espectadores, que lembram a assistência dos jogos romanos, nas lutas entre gladiadores, ávidos por sangue, sequiosos de uma jogada brusca com revide, pra dar início à atração maior, ponto alto do espetáculo a ser apresentado: uma boa, saborosa, exultante, emocionante e encarniçada briga, satisfazendo apetites trogloditas; assistência composta de sanguinários membros de alguma entidade ligada aos descendentes do Átila, o flagelo de Deus.
Tem início a batal…, quero dizer, o jogo. Em dez minutos, marcamos o primeiro gol, o segundão do São Vito, com Rafael, é imbatível, estamos invictos há 23 jogos.
Logo em seguida têm início as jogadas ríspidas, o Mocidade não aceita resultado adverso. Juiz, deles é claro, faz sua parte na mutretagem, inverte faltas, em todos os ataques do São Vito ele apita impedimento e o nosso time administra o resultado até o final do primeiro tempo.
As caneladas e empurrões provocativos do primeiro tempo deixam nossos jogadores revoltados e sem vontade de voltar pro segundo tempo. Concluímos que esta seria a pior decisão e o melhor era continuar na segunda etapa, sem provocar.
O jogo, reiniciado, ganha renhidas disputas de ambas as partes até que, num revide de pontapé recebido, nosso beque central faz falta, bem longe da grande área. Não deu outra. O árbitro, sabujo inveterado, preocupado em cativar os dirigentes dessa corja de mastodontes endiabrados, apita pênalti. Foi a preciosa gota de orvalho a desencadear revolta entre os nossos elementos, contra esse assoprador de velinhas de aniversário. Quando cercamos o juiz, a torcida inteira, junto com os jogadores adversários, veio pra cima de nós, com se estivessem esperando o sinal de ataque.
Socos, pontapés, bordoadas, safanões, empurrões, acompanhados pelo melodioso xingamento, de ambos os lados, esgotando o repertório com que agraciamos nossas queridas mães, nestas refregas. Louvamos, mais uma vez, o quanto elas são lembradas, e como ficam acirrados os ânimos, com a simples menção das consagradas genitoras. Digníssimo exemplo de amor maternal, só detectado aqui no Brasil.
Não se sabe como, de repente apareceu a polícia e pôs fim ao massacre. Fomos nos recolher, indo pegar nossas roupas pra ir embora, ânimos relaxados; de pronto, um safado da turma deles, num repente digno de um bote de serpente, por trás, me dá um tremendo sopapo, atinge meu rosto e a orelha, simultaneamente, me pondo a nocaute.
Acordo, ouvido zumbindo, todos já com a chancra embrulhada, prontos pra ir embora. Só eu, ainda de calção e todos esperando eu me trocar, não querem me deixar sozinho. Quero saber quem foi o f.d.p. e todos alegam que estamos em minoria, vamos apanhar mais e todo aquele papo de "deixa pra lá". Peço a um dos nossos: "me fala, Nino, não vou reagir, juro, só quero saber quem foi". Nino me aponta o juiz, olhando pra nós e rindo, gozando com os amigos a nossa humilhação.
Num piscar de olhos, questiono comigo mesmo: "como você vai dormir, hoje, com o tremendo gesto covarde desse energúmeno; como você vai encarar seus parentes, seus amigos?… Ahhh, não, isso não vai ficar assim… espere, não faça nada…!".
Desvencilho-me dos amigos e de mim mesmo, saio correndo pro outro lado do campo, em direção ao salafrário.
Chego perto, ele está de costas, toco no seu ombro e quando se vira dou-lhe um tremendo murro na cara, rodopia e cai no chão, enquanto isso seus amigos, de bate-pronto, caem pra cima de mim e me aplicam a maior surra que levei em toda minha vida. Uma surra gostosa, deliciosa, revigorante; saio debaixo da matilha, saudado e glorificado por mim. Não sinto dores dos hematomas, a pior dor já tinha passado, a dor da moral ofendida, da honra, do auto-respeito maculado; nada mais revigorante do que responder a altura uma ofensa dessa natureza, de fato, uma surra prazerosa.

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