Um triste carnaval

Estávamos nós, eu e meus dois irmãos, dançando no salão do Atlética Matarazzo, num dos andares do Prédio Martinelli, quando pelo microfone ouvimos nossos nomes. Fomos até o palco e fomos informados de que meu pai estava internado em estado grave. O hospital ficava na Vila Mariana, do nome não me lembro. Eu tinha 16 anos e meus irmãos, 18 e l9. Meu pai faleceu na segunda feira de Carnaval. Era noite. O velório seria no próprio hospital de onde sairia para o cemitério do Araçá. No local não havia roupa para vesti-lo. Um amigo se prontificou a ir buscá-la. Morávamos na Água Branca. Fui com ele em seu carro. Embora houvesse outros caminhos fomos pela Avenida Brasil, que segundo ele nos levaria mais rapidamente ao nosso destino. Quando entramos na Avenida, fomos surpreendidos por um enorme congestionamento devido ao "corso", com pessoas cantando, jogando confetes e serpentinas entre os carros que buzinavam estridentemente. Tivemos que seguir pacientemente até que pudéssemos nos livrar daquela balbúrdia. Finalmente chegamos em casa. Porém, surpresa. Havíamos esquecido a chave. Portas e janelas trancadas. Era preciso resolver o problema. Voltar ao hospital, nem pensar. Por sorte tínhamos no quintal uma escada, dessas que os pintores usam. Encostei-a na parede da cozinha e subi no telhado. Era noite. A escuridão era total. Ainda não havia iluminação pública em nossa rua. Consegui tirar algumas telhas do telhado da cozinha e me esgueirar por entre elas para alcançar o forro de estuque. Havia um alçapão que ficava acima do armário que chamávamos de "guarda-louça". Tateando cuidadosamente e ajoelhado sobre o madeirame que sustentava o estuque no qual não poderia pisar, pois ele por certo cederia, consegui localizá-lo. A escuridão era total. Com muito esforço tirei a tampa do alçapão. Cuidadosamente fui saindo, primeiro as pernas, depois, vagarosamente fui escorregando até ficar dependurado com os pés a poucos centímetros do armário. Finalmente consegui me firmar sobre o móvel e escorreguei até uma cadeira que estava ao lado. Ascendi as luzes, peguei a roupa e sai. Voltamos ao hospital, por outro caminho. Foi uma experiência que nunca mais esqueci. Tinha, como disse, apenas 16 anos de idade.

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