Derrapando na Bosque da Saúde

Lembro-me vagamente dessa passagem, pois eu era bem pequeno e ainda havia bondes em São Paulo…
Ir da Vila Mariana ao Jardim da Saúde era uma tarefa meio que demorada…
Diria que a pé, hoje, eu iria mais rápido que de ônibus àquela época…
São pouco mais de três quilômetros…
A única dificuldade era atravessar o charco onde hoje está a Avenida Ricardo Jafet…
Havia poucas passagens…
Para ônibus então, que me lembre apenas três…
A Rua Santa Cruz, a Luis Góes e a Bosque da Saúde…
Se a região alagasse, só de ônibus ou a pé…
De carro nem pensar…
Pegava-se o 115…
O ônibus que fazia o trajeto da Sé ao Jardim da Saúde, passando em frente ao colégio Arquidiocesano, bem em frente a esse monstrengo que chamam de Shopping Santa Cruz…
O 115 passava de hora em hora, seguia pela Avenida Jabaquara, entrava à esquerda na Praça da Árvore (que diz a lenda nunca existiu), descia a Avenida Bosque da Saúde, cruzava o córrego, subia a Bosque, entrava na Avenida do Cursino e pronto…
Estávamos no Jardim da Saúde…
Na beiradinha do bairro, porque os ônibus não circulavam dentro do bairro, o que até hoje não ocorre…
O Jardim da Saúde é um dos poucos bairros da São Paulo que preservam suas características dos anos 50 e 60 que não foram destruídos pela sanha predadora antropofágica dos empreendimentos imobiliários…
O trajeto inverso do ônibus era o mesmo…
Só tinha um problema…
Quando chovia, a subida, hoje suave, ao lado da Igreja Santa Terezinha era um sabão…
Para dificultar, havia os trilhos do bonde que também passavam pela Avenida Bosque… Não tinha jeito…
Passei por essa situação no mínimo duas vezes…
Na minha cabeça de criança, custava-me entender porque tínhamos de descer do ônibus, andarmos os duzentos longos metros da ladeira e voltarmos a subir…
Ainda bem que não tinha que empurrar…

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