Uma porca e duas porquinhas

Piquenique de igreja numa chácara em São Paulo, cujo nome nem me lembro mais, nos distantes anos 1960. Levava-se comida embrulhada em panos de prato e cocas-colas em garrafões de vidro. As meninas iam de vestido porque quase ninguém tinha calças jeans. Dia lindo, ensolarado, os grupos iam se encontrando, abrindo toalhas no chão, dividindo o almoço. Á tarde haveria uma gincana com prêmios e fora anunciado que o primeiro prêmio havia sido doado por um fazendeiro local, uma porca com duas porquinhas!
Resolvi entrar na gincana para ganhar a bichinha. Com doze anos, não tinha idéia de onde eu colocaria a tal porca e suas crias, pois morávamos em um sobradinho cujo quintalzinho retangular aos fundos mal dava para secar a roupa da família. No entanto, me apaixonei pela idéia de ter uma porca e seus nenêzinhos só pra mim. Quando a gincana foi anunciada ás 3 horas eu já estava me inscrevendo.
Foi uma típica gincana daqueles anos dourados: corrida do ovo e da colher, corrida dentro de sacos de estopa, procurar objetos e trazer para o organizador (um pente marrom, um sapato branco e um batom vermelho), equilibrar uma bola na cabeça, e por aí vai. Eu corri como nunca, equilibrei como nunca, procurei objetos como nunca. Eu queria a tal porca.
Acabada a gincana, eu ainda recuperava o fôlego quando os prêmios foram anunciados: terceiro lugar, pegue o seu prêmio, segundo lugar, aqui está o seu, e agora, o primeiro lugar, quem será que vai levar para casa a porca e as duas porquinhas? Suspense…
O organizador falou o meu nome! Que alegria! Corri para receber o meu prêmio. Onde estavam os animais? Será que já haviam mandado buscar as minhas porquinhas na fazenda? Já pensava em como ia chamá-las e onde elas iam dormir, numa caixinha de madeira que eu forraria com um cobertor velho. Com doze anos a gente não pensa muito, nunca me passou pela cabeça que seria impossível manter animais de fazenda numa casinha na cidade.
– Aqui está o seu premio – disseram, me entregando um embrulhinho minúsculo. Não entendi como as minhas porquinhas poderiam estar dentro daquele pacote tão pequeno, mas ao abrir… Ah, decepção! Encontrei duas porcas de metal pequenas e uma um pouco maior. Uma porca e duas porquinhas!
Fiquei ali na frente, meu rosto fervendo de vergonha por ter sido enganada, enquanto ao redor todos riam de mim. Até o prêmio do terceiro lugar era melhor do que isto. E pensar no tanto que eu havia me esforçado para ganhar os animaizinhos!
Me escondi pelo resto do piquenique. Me sentia lesada e queria vingança. Queria as minhas porquinhas que me foram prometidas.
Joguei fora o pacote com as porcas de metal e fui chorar num canto.
Naquele dia eu comecei a sair da minha infância.

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