Memórias Marcelinas

Em 1958 eu estudava no Colégio Santa Marcelina, no bairro das Perdizes, quando as irmãs Marcelinas adquiriram uma propriedade num local distante, cercado de bosques de eucaliptos e ar puro, para construir uma casa de repouso para as irmãs idosas e convalescentes…
Entretanto, a superiora Irmã Sophia Marchetti, pioneira da fundação das obras Marcelinas no Brasil, vendo a pobreza de Itaquera, desprovida de serviços de saúde, idealizou a construção de um hospital, para atender a população carente da região.
Essa obra de fôlego e coragem, na distante e tranqüila região chamada Itaquera, na época com apenas cerca de 60.000 habitantes, materializou-se do sonho dessa irmã de caridade, como eram chamadas!
A origem do bairro Itaquera – “Ita-Aker”, que em guarani significa "pedra a dormir" – como núcleo residencial data de 1890, quando o Dr. Rodrigo Pereira Barreto trocou sua fazenda de Ribeirão Preto e Sertãozinho pelas terras em Itaquera, e o Dr. Francisco Gentil de Assis Moura, juiz comissário da capital, adquiriu as terras de Geraldo Marcondes de Abreu, mediante procuração em causa própria, terras essas que atualmente correspondem as Vila Santana e Vila Cristinópolis.
Para possibilitar a realização do Hospital, as irmãs acionaram todas as famílias da região de Perdizes, Pacaembu e adjacências, além das famílias de suas inúmeras alunas, montando um grande mutirão gerador das necessidades financeiras e materiais que surgiam a cada momento.
Eu participei de inúmeras rifas, sorteios, doações e quermesses na chácara do Colégio, que foram feitas sempre com o intuito de arrecadar fundos para a construção do hospital.
Eu não levava o menor jeito para vender as rifas, portanto papai comprava os bloquinhos que recebíamos e eu levava o dinheiro das rifas para o Colégio.
Fizemos vários piqueniques com as irmãs, indo de ônibus escolar do Colégio nas Perdizes até Itaquera, para conhecermos o local e depois para vermos as diferentes etapas da construção, todas contagiadas pelo sucesso da futura obra. Era uma viagem.
Recordo-me das diversas irmãs empenhadas e cada uma se auto cobrava pela participação e empenho na realização do Hospital.
Pais de alunas cuja profissão podiam colaborar de alguma forma se ofereciam para ajudar.
Assim, com a sensação de que todas nós éramos parte daquele projeto, assistimos no dia 5 de agosto de 1961, depois de apenas três anos de trabalho, a inauguração do “Hospital Santa Marcelina”, com a presença de diversas autoridades e do bispo Dom Paulo Rolim Loureiro.
Alguns pais fizeram doações diferenciadas, como o senhor José Cardamone, pai da minha amiga Maria Eugenia, que doou uma cama cirúrgica para o hospital!
Em 1961 a superiora Sophia transferiu-se para Itaquera, a fim de cuidar de perto da sua obra.
O hospital começou com 150 leitos, um pequeno laboratório de análises clínicas, uma sala de radiologia, duas salas de cirurgia, uma sala de parto e duas de emergência.
Para seu funcionamento, contava na ocasião com um corpo clínico de 7 médicos e 30 funcionários, ajudados pelas irmãs e dirigidos pela incansável diretora e fundadora Ir. Sophia Marchetti para atender àquela população.
Papai, como médico, recebia na época muitas amostras de remédios, além das que ele pedia aos laboratórios para enviar ao hospital e eu semanalmente levava para a Irmã Aparecida, minha mestra de classe e superintendente do ginásio, vários sacos de amostras diversas de remédios, para serem encaminhadas para o Hospital.
Entretanto, o crescimento acelerado da cidade, a migração em massa, transformaram Itaquera e vizinhanças num dos bairros de grande e desordenada expansão; Surgiram as COHABs e a pacata Itaquera atingiu cerca de 700.000 habitantes e a região 3.500.000!
O Hospital cresceu e tornou-se referência para a população local, além de praticar intensificada campanha de combate ao mosquito da dengue, junto a toda gama de atendimento médico-hospitalar. Porém, esses equipamentos e programas ainda são insuficientes e não conseguem atender a incomensurável demanda.
Profissionais especializados em número reduzido (psicólogos, psiquiatras, neurologistas, endocrinologistas, cardiologistas e outras áreas afins) e a falta de equipamentos mais modernos, muitas vezes os impedem de realizar o trabalho com a dedicação que gostariam.
Infelizmente o quadro da saúde atual, com a mortalidade infantil de 14,52 a cada mil nascidos vivos; a materna de 44,72 a cada cem mil nascidos vivos exaurem as Irmãs e as equipes no intuito de conseguirem atender ao que elas se propuseram.
As principais causas da morte da população itaquerense são: doenças do coração, doenças cerebrovasculares, homicídios, pneumonias, doenças respiratórias. E o trabalho cresceu muito além do previsto.
Foi fundada também a Escola de Enfermagem e a Biblioteca Ir. Sophia Marchetti, que funciona desde 1999, direcionada às áreas de saúde, administração e radiologia, além de atender aos cursos técnicos, tecnólogos, de graduação e de especializações do programa de pós-graduação, inclusive na modalidade de residência multiprofissional.
A Casa de Saúde Santa Marcelina está situada na Rua Santa Marcelina, 177, em Itaquera, como o símbolo da realização, esforço e dedicação das Irmãs Marcelinas, de suas alunas e familiares além das diversas famílias da região de Perdizes e Pacaembu que se empenharam e colaboraram na realização desta realidade, chamada Hospital Santa Marcelina de Itaquera.

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