Minha Memória… Minhas Histórias – Continuação

Na rua em que nasci, aquela em que ficava a já citada padaria Napolitana, havia uma habitação coletiva comandada pelo senhor João Carioca, que detinha o poder de senhorio sem tê-lo. Na porta do cortiço vigiava a entrada, sentado na cadeira, a bengala como arma. Nos fundos, o campinho de futebol, que chamávamos de chácara, terrão preto, das primeiras peladas. Na lateral do campo os fundos da metalúrgica Metalma, fábrica de latas, do velho Chichilo Matarazzo, onde havia duas principais portas, na Caetano Pinto e Visconde de Parnaíba.
Em João Carioca havia a dualidade no comportamento, na euforia dava até água aos meninos após os jogos, água fresca do tanque, servida na moringa. Na depressão, tristeza ou quando brigava com a esposa proibia o futebol no campinho, o terreno era interditado.
Tinha dois filhos, Anézio, o mais velho, mais recatado, bom jogador de futebol, Osvaldo, vulgo “Osvaldinho”, meio louco, colocava uma maçã, daquelas argentinas, inteira na boca, quando não, a mão fechada até o pulso. De tanto ler o gibi do capitão Marvel, um dia cismou de subir em cima do telhado da casa, com a toalha amarrada no pescoço sobre as costas e saltar, pretendendo voar, flutuar-se no ar, igual ao herói… Alado.
Osvaldinho maluco esteve com os joelhos suturados, embebidos em mercúrio cromo e o tornozelo gessado por duas semanas seguidas. Gessagem, claro! De clara de ovos batidos, feitos por dona Josefina, sogra do “Bello Papá”, que com seus cento e quarenta quilos ficava todas as tardes sentado na cadeira com o espaldar contrário ao seu tórax, no portão de casa, com os olhos enviesados, monitorando os carros que passavam pela rua, aguardando o momento de devorar as deliciosas receitas da esposa, Dona Antonieta, na hora do almoço ou jantar.
No futebol da chacrinha é que surgiu o Rei da Visconde, primeiro time de futebol da turma. Uniforme de adulto, antigo, desfiado, doado por alguém. Somente dez camisas, a número seis havia se perdido, Paschoal, alf esquerdo, jogava com a própria camisa, que substituía a faltante.
Primeiros e únicos jogos (na construção da Alcântara Machado) contra o Nacional F.C., da Rua Carneiro Leão, somente existia esse adversário. Todo domingo o mesmo jogo, no asfalto preparado para receber o piche. Na lateral a boca-de-lobo, sem a grade de ferro, onde caí, na lateral esquerda da projetada avenida, jogando na ponta esquerda, por precoce vocação. Cinco minutos jogados com dez, até ser retirado do buraco, após ter sido puxado pelo torcedor que me viu cair no bueiro. Quase sempre ganhávamos, pelo magro placar de um a zero (1×0) e íamos à esquina da Rua Carneiro Leão com a Azevedo Junior, onde ficava o adversário, provocá-los, soltar um pequeno rojão de um só tiro, alcunhado pela marca de caramuru. Quando esporadicamente eles saíam vitoriosos, vinham até a porta da padaria Napolitana soltar o dito rojão. Durval, o mais ressentido pelas derrotas, era o ponta esquerda do time adversário, cedo já frutificava seu amor ao futebol, nos dias atuais é um dos meus melhores amigos corintianos… Um inconteste fanático por futebol, desde pequeno colecionava figurinhas das balas futebol (caramelo, em forma cilíndrica, bem doce). Disputava com avidez as figurinhas no jogo de abafa, inclusive as carimbadas, exceto o “Futebolino”, coringa que permitia encher o álbum. O dinheiro juntado, para comprar as balas, muitas vezes provinha da venda de ferro velho achado nas ruas: garrafas vazias, jornais velhos, metais, cobres, alumínio, e bronze, onde se conseguia um pequeno lucro. A preferência na venda era dada à Dona Pepa, mãe do Chumbinho. Na primeira distração pegava-se os montes de metais de propriedade dela, e juntávamos com os nossos que já estavam na balança para serem pesados. Lembro como se fosse hoje dos sotaques que ela usava com sua voz rouca e erros de português: “compro ferro véio e jorná veio”.

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