Uma mulher da rua

Maria de tal, mais conhecida como Maria fumaça. Era uma negra que zanzava pela rua, dia e noite, até os primeiros anos da década de 1950. Andava a procura do nada. Era uma mulher da vida. Não. Não era uma prostituta, como essa frase possa sugerir. Era uma mulher que queria ser livre e, sua liberdade, era a sua moda. A Rua, era a sua felicidade. (Ao contrário do poeta que dizia que a rua estava ficando exausta de seus passos). Gostava de andar. Viveu bons anos assim. Era pedinte. Muitas pessoas davam lhe dinheiro. Outras preferiam dar o que comer, ou beber. Negava-se a tomar café ou leite. A pinga era sua bebida preferida, e para tal, marcava sempre o ponto em bares onde somente cachaceiros estavam. Era um enigma. Ninguém sabia nada a seu respeito. Mas, todos gostavam dela. Não era mal educada, nem desbocada. Chamava os mais velhos de senhor. Tinha uma coisa que impressionava as pessoas. Um sorriso crônico, com seus dentes embora sem escovar, sempre alvos. Nos comentários das rodinhas de bate papo nos bares, era de que: “Como pode uma pessoa como essa sorrir o dia inteiro?”. Sorri de que, essa infeliz! Chegou-se a dizer. Tinha preferência pela zona oeste, estava sempre por perto do Hospital das Clínicas. Brincava que se preciso fosse, ela estaria bem perto do mozocomio. Mas não deu tempo nem sequer de pensar em levar ela. Num dia, em que a temperatura estava bem baixa, Maria Fumaça, apareceu morta, na calçada do cemitério do Araçá. Meu pai que era marmorista e trabalhava ali na Rua Dr. Arnaldo, foi vê-la no necrotério. Estava bonita, disse ele.