Susto na Usina da Traição

Estamos no início dos anos 60, estudo no Colégio cuja história se confunde em demasia com minha vida, o Colégio Frederico Ozanan.
Embora bastante popular na escola eu não era um aluno de primeira linha ou um CDF como se costumava rotular na época.
Sentar, sempre me sentei no fundão, colar, se desse, eu não me fazia de rogado, mas, na hora de estudar para não perder o ano eu fazia qualquer tipo de sacrifício.
Na minha carreira estudantil, muitas foram as noites de vigília, devorando livros de leitura enfadonha ou escrevendo lições, num processo empírico de decorar matérias, antes de algum exame ou prova.
Para enfrentar essas noites, eu me acomodava no sofá da sala da casa onde eu morava no 291 da Rua Augusta, deixava cadernos, livros e papel à mão, algumas bolachas, uma garrafa térmica com café, outra garrafa com água e, lógico, um ou dois comprimidos de “perventim” para ajudar a driblar o sono.
Esse processo, normalmente apresentava bons resultados, muito embora o dia posterior ser mais difícil de ser vencido.
Lembro-me que em uma ocasião, uma prova mensal estava causando pânico em toda a classe, o professor exigente (Professor João Cipriano), a matéria chatérrima (Geografia), e muitos alunos precisando de notas altas para fechar a média das provas mensais.
Entre os necessitados estavam: eu, o Serginho (sobrinho do Ministrinho), o Aldo (que passou para o andar de cima no final do ano passado), o Waltinho (Cozzolinno) e o Newton (Rubem Caggiano).
Reunidos, resolvemos enfrentar a madrugada para um estudo coletivo. O local escalado foi a casa do Newton, ele morava na vila de casas dos funcionários da Light ao lado da Usina da Traição.
Devidamente concordes e combinados, resolvemos nos dirigir para lá ao final das aulas do dia (noite) por volta das 23 h., e assim o fizemos.
Na época, me lembro, a Avenida Marginal de Pinheiros estava sendo construída, e as obras na lateral da Usina estavam a todo vapor. Havia chovido e o barro era intenso.
Descemos do ônibus no final da Ponte da Avenida Cidade Jardim, e encetamos a caminhada até a casa do Newton, o caminho estava bastante escuro e, claro que jovens e animados, fomos brincando, assustando uns aos outros. Quando estávamos bem próximo da usina, o Serginho errou o caminho e chegou até o alto de uma rampa de um paredão de terra que havia sido trabalhado pelas máquinas horas antes e, sem sombra de duvidas, o baixinho e gordinho perdeu o equilíbrio e rolou ribanceira abaixo.
O grito de dor que ele soltou colocou todo mundo em alvoroço, eu principalmente, pois como vizinho mais próximo e amigo da família estava com a responsabilidade pelo sacripantas. Procura daqui e dali e nada de encontrar o garoto, começamos a temer que ele houvesse caído no Rio Pinheiros e, aí, o perigo seria muito maior, a Usina estava funcionando aquela noite.
Gritos, chamadas e, de repente ouvimos um gemido, localizamos a direção do som e, logo em seguida o Serginho. O pai do Newton, que naquela altura já se juntara ao grupo, constatou que o moleque estava bastante ferido e com nossa ajuda pó colocou no automóvel da família e o levou para as Clínicas.
Mesmo sem outras ocorrências assustadoras o grupo remanescente não conseguia se concentrar no estudo. Aguardava ansioso o retorno do Sr. Caggiano com notícias sobre o acidentado. Ele chegou depois de umas duas horas de demora trazendo o pivô do acidente devidamente engessado e todo pintado de mercúrio cromo.
Pronto, ânimos sossegados, estudo relegado ao ultimo plano, o papo rolou por toda a madrugada e o motivo mais constante foi como eu deveria chegar dando a noticia para os pais do Serginho.
Logo ao amanhecer, depois de um bom café, voltamos para casa e eu, cônscio do meu dever acompanhei a vitima até sua casa. Foi um susto e tanto para os pais dele, mas depois de algumas broncas a raiva serenou e pude ir para casa.
Balanço geral: O Serginho engessado da clavícula ate a cintura por 6 meses, a falta ao trabalho por causa do cansaço noturno, a prova de Geografia encarada sem qualquer preparativo e, lógico com notas muito aquém das desejadas.
Foi uma noite de terror ao largo da Usina Elevatória da Traição (que não se perdeu pelo nome).