No final dos anos 60, construía uma casa num loteamento da City, denominado Vila Inah,em região próxima ao estádio do Morumbi. O meu lote ficava na divisa do loteamento, tendo como vizinha uma pequena chácara, cuja moradora criava uma cabra para fornecer leite aos seus filhos. Num determinado fim de semana,vistoriando o término da minha construção, fui surpreendido com uma gritaria: a senhora e filhos, aos berros, reclamando a devolução da cabra que estava devidamente laçada pela carrocinha de cachorros e sendo enfiada na mesma. Juntei-me ao grupo e, num impulso de grande solidariedade, postei-me na frente da carrocinha, alegando ser advogado (estava terminado o 4o. ano)e que só levariam a cabra se passassem sobre mim. Não deu outra: quase trafegaram por cima de minha pessoa e desceram a rua, em direção à Av. Francisco Morato, em cuja esquina havia uma Delegacia de Polícia. Descemos todos em correria,eu,a mulher,seus filhos, tentando alcançar a carrocinha, que sumiu pela Av. Francisco Morato em direção, supúnhamos, à famosa fábrica de sabão da Prefeitura (não sei se ela efetivamente existia e se haveria um novo tipo de sabão com cheiro de leite de cabra). No embalo, entramos na Delegacia, apinhada de gente e, provavelmente, de muitas ocorrências sérias. Paramos perante o Delegado e eu falei peremptório: vim aqui dar queixa sobre a laçada da cabra de minha cliente pela carrocinha de cachorros. O Delegado pôs às duas mãos na cabeça, em gesto de desespero, olhou para nós e, pelo seu olhar, resolvemos todos sair de fininho e tentar achar a cabra em outra freguesia.