Na minha narrativa anterior “Um Jornalista caipira em São Paulo” encerrei citando que conseguira meu registro como Jornalista Profissional junto ao Ministério do Trabalho. Dias depois telefono para Agência Folhas e falo com o Trovão (Antonio Trudes da Veiga) sobre vagas. Ele pede para ir falar pessoalmente. Resultado: fui admitido como rádio-escuta. Quando pensava que fosse acumular dois empregos a Record me demite. Tive a sorte de conseguir uma vaga de repórter policial no Diário do Grande ABC. Que correria! Chegava à redação, na Rua Catequese, 563 – Santo André, pegava um carro e um fotógrafo e saia correndo os distritos policiais do ABC. Voltava, escrevia rapidamente as matérias. Almoçava ligeiramente e, às 15h30 tinha que estar na estação de trem para embarcar, chegar às 16h30 na Estação da Luz e ir direto para a Agência Folhas (Alameda Barão de Limeira, 425). Todos os dias fazia esse percurso.
Na Agência era tranqüilo. Bastava ficar ouvindo rádio, gravando os noticiosos, levantar as notícias importantes e encaminhar para a direção. O Diretor era o Luiz Carlos Rocha Pinto. Esse diretor era um “saco”. Pegava no pé de todo mundo. Contam que uma vez ele chegou a tirar o espelho do banheiro masculino só porque os contínuos tinham a mania de irem lá constantemente e ficarem se penteando diante do espelho e com isso faziam hora. O pessoal da Folha chiou e o espelho foi recolocado. Além do Luiz Carlos e Trovão, tinha também o Grassi (José Roberto Grassi), que acabou batizando minha filha Fabiana. Na Editoria de Esportes tinha o Cecílio Favoretto. No interior o Fernando Barros, o Dérsio Chiconello e o Milton George Thame, o Turco. Na polícia o Eli (esqueci o sobrenome). Eta equipe boa! Entre os rádioescutas tinha a Rúbia, Valquíria, Iassin, Ferreirinha, Leon Santos (Rádio Tupi) e até um oficial da PM, o Capitão Brambilla. Aliás, em termos de segurança a Agência Folhas estava bem equipada. Tinha dois delegados (Bim e… quem era o outro mesmo?) um tenente PM (Chiconello), um Cabo PM (Milton) e o Capitão Brambilla.
Da Agência Folhas tenho inúmeras passagens. A primeira foi uma peça que me aplicaram. Eu entrava às 17h. Num desses dias chego e vejo no quadro de avisos o recado “Arlindo, ligar para Dra. Ema”, seguido do número de um telefone. Imediatamente eu disquei e quando atenderam disse alto: “Quero falar com a Dra. Ema”. “Do outro lado ouvi a resposta: ‘Aqui é do Zoológico”. Fiquei vermelho na hora enquanto todos davam risada. Numa outra ocasião, sai de casa pela manhã para resolver uns problemas, inclusive no Departamento Médico da Empresa Folha da Manhã. Achei estranho o ônibus ter demorado quase três horas para fazer o trajeto do Jardim Miriam (Zona Sul) até o Anhangabaú (Rua Formosa). O trânsito na cidade estava caótico. Resolvido o problema decidi dar um chego na Agência. Quando o Grassi me vê ordena imediatamente que eu comece a trabalhar. Só minutos depois é que fiquei sabendo do Incêndio no Joelma. Naquele dia fiquei trabalhando até a meia-noite (saía as 22h).
Como eu queria porque queria seguir a função de repórter, a direção me liberou para que nos fins de semana eu trabalhasse para a Editoria de Esportes. Fazia vestiários nos jogos de futebol. Não me lembro bem o ano. Foi quando da decisão do Campeonato Paulista, no Morumbi entre Corinthians e Palmeiras. O “Timão” perdeu por 1 a 0 e Rivelino foi acusado de amolecer o jogo e acabou sendo vendido para o Fluminense. Naquela época o Corinthians era favorito. Tão favorito que eu, repórter inexperiente, fui escalado para fazer os vestiários do Palmeiras. A equipe esportiva do Grupo Folha foi para o Morumbi numa Kombi. Lá estavam os “cobras” do jornalismo esportivo paulista: Flávio Adauto, João Bosco, José Campos e tantos outros. Todos certos de que o alvinegro seria campeão.
Pela manhã eu fui fazer matéria com os primeiros torcedores. Lembro de ter entrevistado torcedores de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Sul. Teve torcedor que chegou a dormir em frente do Morumbi para não perder o espetáculo. O jogo ia começar às 16h e às 9h já tinha fila. Numa outra ocasião o Cecílio Favoreto pediu que eu cobrisse a chegada da seleção húngara de basquete masculino que jogaria em São Paulo contra a seleção brasileira. Fui orientado com o horário, empresa aérea, etc. A caminho, naquele fusquinha amarelo da Folha, o fotógrafo sugere parar para um café. Era um sábado pela manhã. Quem era eu para ir contra, já que ele tinha mais tempo de janela que eu. Moral da história: quando chegamos ao Aeroporto de Congonhas a delegação já tinha chegado. Fiquei apavorado. Consegui descobrir o hotel onde os húngaros estavam hospedados. Fui lá e consegui entrevistar o técnico. Mesmo assim levei aquela bronca da chefia. No dia seguinte o Estadão publicava a matéria com fotos tirada em Congonhas. A Folha com fotos no hotel.
A Agência Folha funcionava no quarto andar e ao lado a redação da “Folha”. Uma vez o Lemos (chefe de reportagem da Folha) resolveu pegar uma num repórter iniciante. Como na Agência tinha um delegado (Dr. Bim) que trabalhava como um dos coordenadores da redação. O Lemos combinou tudo com ele que era plantonista do 15º Distrito Policial. Quando o repórter chega nem acaba de falar boa tarde e o Lemos pede que ele vá imediatamente fazer matéria sobre a prisão de uma quadrilha de traficantes de drogas, no 15º DP. O coitado pede fotógrafo e carro, mas a chefia disse que naquele momento não tinha, que ele pegasse um táxi.
O repórter chega ao distrito policial correndo. O táxi fica lá fora aguardando. Ele fala que pretende fazer matéria sobre os traficantes. Só que dá de cara justamente com o delegado Dr. Bim, que olha sério para o repórter e pede documentos. Ele não tinha. Aí diz: “Você está parecendo mais um dos integrantes desse bando que prendi”. O delegado afirmando que o rapaz também era traficante. Ele nega afirmando ser repórter da Folha. O repórter se apavora e pede que o delegado ligue para a redação. Ele o faz, mas, logicamente tudo estava combinado, conversa com o Lemos que diz não ter escalado nenhum repórter para aquela missão. E o táxi lá fora aguardando o rapaz. Discute daqui, discute dali, o delegado pede que o rapaz vá embora imediatamente caso contrário ele iria fazer companhia aos presos. Quando chega na redação, tremendo e quase chorando, todo mundo cai na gargalhada.
A Folha publicava quase que toda a semana carta de leitores denunciando buracos na Avenida São João. A prefeitura mandava carta desmentindo, dizendo que não havia buracos. Um dia a chefia de reportagem manda um repórter fazer uma matéria especial. Teria que percorrer a Avenida São João do começo ao fim contar e catalogar todos os buracos que porventura existiam. Queria saber quem estava mentindo: os leitores ou a prefeitura. No dia seguinte o jornal sai com chamada de primeira página mais ou menos assim: “Avenida São João tem X buracos”. Nunca mais a prefeitura enviou carta contestando. Lógico que todos os buracos foram tapados.
Em 1977 eu deixei o Grupo Folhas para assumir a Assessoria de Imprensa da prefeitura de Diadema. Mas acertei com o Fernando Barros de que ficaria como correspondente da Agência. Ganhava uma mixaria, mas valia. Uma vez estava eu cobrindo uma manifestação de trabalhadores em frente da garagem da Viação Diadema (Avenida Casagrande), pela municipalização dos transportes coletivos. O prefeito já era o Gilson Menezes, do PT. Ele sobe ao palanque e naquele discurso populista fala, entre tantas coisas, que chegou a receber proposta de 500 mil cruzeiros (era uma grana preta na época), para sair do PT e ingressar no PMDB. Ele ainda diz que o autor da proposta fora o Secretário, José Serra, durante o governo Franco Montoro. Eu apenas faço uma nota e envio para a coluna “Painel”. A Folha resolve explorar e no dia seguinte é notícia de primeira página. Deu suíte. Inclusive o Gilson chegou a apresentar uma fita gravada. Acabou em processo. Mas não sei que fim levou.
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