Nos anos 1950-60 os carnavais eram muito bons. Havia os desfiles de escolas de samba e cordões (coisa que não mais existe). Penso que o ultimo cordão foi o do Vai Vai, que virou escola de samba depois que o prefeito Faria Lima oficializou o carnaval em 1967, a pedido do radialista Rubens de Moraes Sarmento. Os desfiles eram na Avenida São João. Vinha lá de cima por perto da Rua Apa e finalizava perto do Correio, onde a escola se dispersava, entrando pelo vale do Anhangabaú. Mais tarde passou para a Avenida Tiradentes, onde ficou por muitos anos até ser construído o Sambódromo. Mas naqueles anos 1950-60 o forte do Carnaval era os bailes nos clubes.<br>Os salões mais famosos eram o do Palmeiras na Turiaçu, o do Corinthians que tinha o seu ginásio como forma de colocar muito mais gente, onde o Tatuapé todo para lá se dirigia, e o do Juventus na Mooca, um salão dos mais refinados em freqüência onde a comunidade Moquense se fazia toda presente.<br>Naquela época (anos 1950) os bailes se encerravam à meia noite, a pedido da igreja, pois já estávamos adentrando a quarta feira de cinzas. Já nos anos 1960 os bailes iam até as quatro horas da manhã invadindo a quaresma, muita gente com cara de sono passava em frente às igrejas com gente já levando cinzas na testa.<br>No ano de 1961 por palpite de Malvino Pereira, diretor esportivo do Flamengo da Vila Olímpia, resolveu-se fazer um convite a vários flamenguistas que lá jogavam para ir até o Carnaval Juventino. Todos toparam na hora, pois muitos de nos tínhamos comprado títulos de sócio do Juventus, na época o que maior numero de associados tinha. Mais de cem mil.<br>Fomos em cinco, ou seis. Era um sábado em que a lua estava sorrindo a toa, e era Lua Cheia. Tudo a favor, aquele calorão em que cervejas eram bem vindas, coisa e tal.<br>Como ninguém tinha carro, um ônibus até o Anhangabaú e outro até a Mooca foram o meio de se locomover. Nunca fui muito de pular carnaval, a não ser para apreciar. Más aquele dia o convite me pareceu alvissareiro, resolvi ir. Quando chegamos na Praça da Sé fomos “calçar” o peito, afinal, ninguém era faquir para ficar de estômago vazio. O único Sujinho aberto foi nosso “restaurante”. Um sanduíche de mortadela e uma caracu foram minha refeição. Mal saímos do bote para pegar o ônibus até a Mooca, eis que o meu estômago sentiu o peso do sanduba estragado. Uma dor terrível de estômago, coisa que nunca tinha tido, me fez pensar em voltar pra casa. Estava já me contorcendo de dor. Mas Bertinho, goleiro titular do Flamengo que jogava com um tubo de bola na cabeça, interferiu. Xará, vai voltar pra casa nada. Toma um comprimido dos meus que essa dor passa logo. Para que o resultado fosse rápido me deu dois. Lembro-me até hoje, era um comprimido de cor verde, (ainda bem) em formato de coração. Mandei os dois pra baixo na base da saliva por falta de água pelo caminho.<br>Foi a mesma coisa que tirar a dor com a mão. Feliz da vida, fui com os colegas. Na porta do Clube Juventus havia um belo salão, os amigos compravam ingresso e eu ali esperando. Foi quando um sujeito acendeu um pacau de maconha e me ofereceu uma bituca. Neguei o recebimento agradecendo a oferta. Já tinha ciência que sempre nos ofereciam a princípio gratuitamente para depois tornarmos clientes. Entrando no salão já repleto. Muitas famílias com seus filhos, até mesmos menores de idade. Moças bonitas, e a Miss Carnaval do Juventus lindíssima, tudo era festa, dentro do maior respeito. A gente brincava até mesmo com as mulheres casadas e não via um ato desrespeitoso, das 22 até as 4 horas de la matina. A música mais tocada era Faz um quatro aí que eu quero ver, gravação de Moacir Franco, para aquele Carnaval, que a orquestra contratada pelo clube tocava a toda hora. O negócio era fazer o quatro colocando uma perna dobrada ao lado da outra. Jovem, com condicionamento físico bom e com duas chulapadas de comprimido, verdinho em formato de coração, ficava a música toda em forma de quatro, sempre apoiado na perna direita. Terminado o baile, na falta de condução para voltar, fomos até o Anhangabaú a pé, passando pelo Parque Dom Pedro. Teve neguinho chapado que quase caiu no Rio Tamanduateí. Não era da nossa turma. Mas tinha se enturmado com o Bertinho esperando umas bolas para botar na cabeça. Quando cheguei em casa eram seis horas da manhã.<br>Fui dormir. Que dormir que nada. Estava mais aceso do que velas em volta do frango da macumba. Fui para o fundo do quintal, fiz ginástica de todo jeito, coisa que nunca passara pela minha cabeça. Às nove horas fui apitar uma partida de futebol do Unidos da Vila Olímpia, capitaneado por Zé da Ana, e mais tarde fui jogar pelo América da Vila Olímpia. À tarde joguei pelo Flamengo e a noite fui à Avenida São João para pegar umas coisas que zanzavam pelo centro. Na segunda feira voltei para o centro da cidade, meu forte em andanças pela Paulicéia, até aí sem dormir um minuto sequer.<br>Na terça à noite que veio o sono. Eta comprimidinhos desgraçados aqueles. Quando passou o efeito dos ditos foi que a cobra começou a fumar. Vinha dor por toda parte do corpo. Distensão muscular até no pescoço. Foram dois meses de angústia e de nervos doloridos. Daí para frente amigos, carnaval deixei para o Claudionor, personagem de uma música carnavalesca dos anos 1950, que era apaixonado pela Colombina.<br><br>e-mail do autor: [email protected]