Brás – 1959
Saio de casa, sábado de manhã, antes passo pela banca de jornais, na esquina da Gasômetro com rua Alfândega. Compro a revista "Mistério Magazine", como faço todo mês, do sempre gentil dono da banca. Este sr. adquiriu a banca há poucos meses e me cobre de gentilezas, oferecendo jornais e outras revistas. Noto que quando me aproximo da banca, sem ele me ver, seu rosto está sério, não carrancudo, mas bem sóbrio. Ao me ver, seu semblante sofre uma transformação imediata, abre um sorriso paternal, bem natural e… sincero, sim, bem honesto, vamos dizer assim. Pelo forte sotaque, concluo ser polignanês (nascidos em Polignano a Mare, província de Bari, sul da Itália, região da Puglia) propriamente dito. Pergunto a ele sobre a vinda dele pra cá, e ele olha bem pra mim, nos meus olhos e diz, em puro polignanês:
"Tu si figuie di Martmai i Felicci?” (Você é filho do Bartolomeu e Felícia?). Confirmo, ele sorri e não diz mais nada… fica triste, de repente e vai atender os outros clientes.
Sou moço, vinte e sete anos, casado há três, com dois filhos, Mauricio, ano e meio e Moacyr, recém nascido, esqueço logo o episódio.
UM DIA, NUM ALMOÇO NA CASA DE MEUS PAIS, LEMBREI DO OCORRIDO E CONTEI A MINHA MÃE, MEU PAI NÃO ESTAVA. MINHA MÃE MUDOU LOGO DE ASSUNTO E FIQUEI NA MINHA, NÃO DISSE NADA.
Na vida de cada um, sempre acontecem fatos e ocorrências que merecem nossa atenção, alguns mais do que outros. Uns, corriqueiros, outros banais, alegres, tristes e até risíveis. Às vezes, na juventude, tomamos conhecimento de alguns fatos que simplesmente permanecem, por longos anos, na esfera da superficialidade. Não esquecemos, mas, também, não damos a devida importância que eles tem, pois, ao absentar-se de uma análise mais profunda, erroneamente tachamos de arroubos ou pequenas contrariedades, sem maiores consequências. Mas, nem sempre é assim. Não é porque se passaram quase cem anos que vamos minimizar as emoções e delírios dos personagens; eram gente, sentiam, amavam, riam, odiavam, choravam e sofriam com todos os sentidos à flor da pele em idades tenras, a lembrar por que razão Sheckspier recorria sempre à juventude pra contar suas tragédias.
Brás – 1912
– Rafael, meu amor, onde você foi… estou aqui te esperando, com frio de gelar as veias, não aguento mais…
– Felí, já te falei tantas vezes… não depende de mim… preciso esperar sair o "Correio Paulistano", esse jornal sempre atrasa…
– Eu sei, Ma, você sabe, meus pais, principalmente meu tio Modesto, sempre pegando no meu pé… saio da "Mariângela" (fábrica de tecidos do Matarazzo, no Braz) às cinco, chego em casa tenho que passar a roupa, lavar, e, às vezes, cozinhar, também…
– E as tuas irmãs…? A Rosalia, a Maria… não fazem nada…?
– Não… não é assim, todos e todas tem suas funções. Somos em sete, não esqueça, e meu irmão mais moço, Dionísio, nascido no natal de 1909, único brasileiro na família, exige muito cuidados, ainda.
Esses diálogos, todos, são falados em polignanês. Felícia Mônaco, operária da Fábrica de Tecidos Mariângela, Matarazzo, dezessete anos, Raphael Zupo, vinte anos, jornaleiro, trabalha no centro da cidade de São Paulo, os dois nascidos na Itália, Polignano a Mare.
– Vamos andar um pouco, Feli, puxa como você está bonita hoje…
– Só hoje…?
– Ohh, você sabe. Você não é bonita… Você é linda, uma beleza indescritível, não canso de pensar em você. o dia todo, tenho até medo de tanta felicidade, parece que…
– Espere um pouco, Rafa, eu também sou feliz, amo demais a quem eu tenho e tenho o que mais amo na vida… você. Você é muito bonito, bom, tudo que eu sonhava, na vida tenho em você. Jura que nunca vai me deixar, jura, por favor…
– Se te faz bem, eu juro, por esta santa luz da lua, nunca vou te deixar… vamos até o Parque D. Pedro ll, pela rua do Gasômetro e depois…
– Cê é louco, Rafa, se meus pais souberem que você me vem buscar, eles não me deixam mais sair, nem de domingo, com você.
– De domingo, não… e a missa, vão te proibir, também…?
– Claro que não, mas você sabe, somos vistos por todos e todo mundo me conhece e a você, também… que vão dizer essa gente!
– Dizer que estamos namorando… e daí… você tem medo até de eu pegar na sua mão…
– Raphael, não vamos começar de novo aquelas discussões…
– Não, não quero brigar, querida, é muito pouco tempo que temos e estou louco pra te beijar e acariciar, pelo menos… suas mãos.
– Ahhh, você. não me engana… quer as mãos, depois o braço, pescoço e… – Num relâmpago, inesperada reação, Felícia agarra as mão dele e traz junto a si, desejando, ardentemente que ele a beije, não as mãos e nem os braços, mas a boca, esquecendo por instantes a maledicência dos que passam, naquele fim de tarde fria de junho, aquecida por ardente e calorosa paixão. É o amor na plenitude de sua explosão, arrebatadora sob as mais belas e nobres das intenções. E o desejado, se consome.
Nos dias, semanas, meses seguintes o amor entre os dois floresce. Depois de ano e meio, esse namoro, aparentemente sem muita garantia de futuro, estimulado por seus pais que muito queriam e se orgulhavam desse namoro, faz Raphael criar coragem, decide falar com o sr. Vincenzo Mônaco, pai da Felícia. Como é costume barês (acredito ser, também de todo sul da Itália), o pretendente vai à casa da amada com seus pais e, sendo conhecidos e da mesma região, facilita os trâmites de ordem social, sabendo uma família o que espera da outra, sem nenhum constrangimento.
Como se trata de gente simples, famílias de prole numerosa e que vive de trabalho braçal, as diferenças de ordem econômica simplesmente não existem.
Brás – 1914
Na cidade ouve-se e os jornais dão notícias sobre a guerra na Europa. Itália e Alemanha se unem a fim de guerrear contra Inglaterra e França, numa das mais encarniçadas e violentas batalhas, guerra de trincheiras, início de monstruosas contendas entre países que hoje, unidos, consideram o resto do mundo como… resto do mundo.
Os italianos em São Paulo não ficam indiferentes às chamadas de voluntários, conclamando-os a se apresentar no consulado. A maioria, mesmo nascida lá, não se sente muito à vontade pra atender esse apelo. Os pais, sim, é que se preocupam em sofrer represálias do governo italiano, num pouco provável retorno a Itália. Alguns chegam a obrigar o filho a ir se alistar. Logram o infortúnio e têm, como resultado, o filho morto.
Brás – 1917
Raphael é um deles, veio criança pra cá e não tem vontade nenhuma de ir pro combate. Por outro lado, pensa nos pais, está pra casar e, com um namoro de quase três anos, não sabe que atitude tomar. Não quer dar uma de covarde, mas também, a ideia de ficar longe da família, da Felícia, e o que é pior, morrer, não lhe atrai. A Itália já dá mostras de provável rendição e a guerra não deve durar muito.
Um patrício põe em sua cabeça de que ele deve se apresentar.
– Raphael, vem cá, eu fiz isso e pra mim deu certo. Hoje sou voluntário INCAPAZ – frisou Nicola, seu amigo -, você vai, se apresenta e eles vão te mandar fazer o exame médico, pra ver se você tem condições de partir. No dia do exame, poucas horas antes, você vai correr adoidado, dar voltas no quarteirão, se estrebuchar mesmo. Aí, o médico vai sentir os batimentos e dará o diagnóstico: incapaz.
– Feli, vou fazer o que o Nicola me ensinou…
– Ma, e se não der certo, você…
– Não vou pra guerra nenhuma, meu amor, simplesmente volto pra casa e…
– Aí você é tachado de desertor, o que é pior…
– Feli, querida, presta atenção, quem se apresenta é porque quer ir, realmente (é o que eles supõem). A apresentação não é obrigatória, o boca a boca do Brás diz que quem quer voltar pra Itália vai ter dificuldade. E quem quer voltar pra Itália, você? Eu quero é casar com você, já esperamos demais. Se eles surpreenderem um candidato com alguma deficiência, impedem, imediatamente, não querem voluntários morrendo na viagem.
– Você não deixa de ter razão, Rapha, faça o que quiser, só não quero ficar sem você.
Raphael capricha no engodo, de tal maneira que, logo após o exame, que lhe dá o esperado, incapaz, vai pra casa com tremenda dor de cabeça e começa a vomitar sangue. Os pais, assustados, chamam o médico, e o diagnóstico é esforço demasiado, sem problemas graves, nenhum.
Nessa altura, o Brás inteiro já fica sabendo: o Raphael, italiano de boa cepa, se apresentou como digno filho da península e foi considerado incapaz… não importa, herói já é, sem ser morto porque não deixaram.
Ficou de cama um dia, e depois foi procurar a Felícia pra lhe contar o final feliz da empreitada. Não a encontrou em casa, estava na casa de uma tia, a casa do tio Modesto, o conhecido "tzi cambere" (tio compadre). Pediram pra ele não procurá-la, ela não estava boa.
Esse tio Modesto, uma espécie de guru da família, nada se faz e nem se fala se não houver o aval do "tzi cambere". Vincenzo, pai da Felícia, obedece rigorosamente a tudo o que ele determina. A mãe, Maria, então, nem se fala. Amém, pra tudo. Fica sabendo da atitude do Raphael (é surpreendentemente bem informado de tudo), toma as providências que julga necessárias, qual seja, proíbe o namoro e o provável casamento.
– O rapaz é tuberculoso, Felícia, vai enviuvar logo, com filhos pequenos, como vai ser…? Seu pai já concordou comigo, conheço a doença, não tem cura, e o melhor é cortarmos o mal pela raiz. Sei que você gosta muito dele, mas temos que ser realistas. Não quero ter esse peso na consciência, meu dever é prevenir um mal maior. Com o tempo você esquece, é bonita, de boa família, não vai faltar partido bom pra você.
– Mas, tio, ele fez isso pra não ir pra guerra, ele me disse, nunca vi nada nele que justifique essa sua desconfiança…
– Ele disse isso pra você, ele sempre teve vontade de ir pra guerra, não viu como ele foi recebido como herói pela nossa comunidade? Um pobretão, vendedor de jornais, com esse mal, onde ele vai se encostar? Aqui, querida, você vai ter que cuidar dele pro resto da sua vida e não quero isso pra minha querida sobrinha. Está acabado.
Felícia nunca mais viu o Raphael, ele adoeceu, chorou muito. A tamanha injustiça que sofre, não suporta mais, pensa que vai enlouquecer. Sua família culpa, além dos pais e o tio, a própria Felícia que não teve força suficiente pra reverter a situação.
Por desencontro de destinos, o grande amor não terminou com tragédia e nem com muita tristeza.
A guerra termina, a família Zupo, pelo grande desgosto sofrido pelo filho, volta, revoltada pra Itália, como sinal de protesto contra a decisão de um xenófobo e ganancioso que se julga dono da verdade, acabando com um amor puro, lindo e nobre. Felícia, depois de alguns anos conhece Bartolomeu Laruccia, polignanes vindo de Petrópolis, casa e com ele tem dez filhos, eu sou o sétimo.
Praga não faltou, e ela não se fez esperar. Mas, isso é outra história.
Soube de pormenores dessa narrativa, pouco tempo atrás, vou contar depois. Minha mãe, que é a Felícia, nunca fez qualquer comentário a respeito. Soube, pelas minhas irmãs, mas não com detalhes. Se viva fosse, não permitiria que eu escrevesse sobre o assunto. Vocês hão de concordar comigo, esse amor não pode ser considerado simplesmente um fato banal. Se pudéssemos julgar cada um dos personagens, à luz dos tempos atuais, cometeríamos injustiças, pois o comportamento dessas pessoas está intrinsecamente ligado aos problemas da época, que não eram poucos.
Uma paixão desse tipo poderia terminar em tragédia ou, pelo menos, uma enorme dor de cabeça. A volta pra Itália da família Zupo trouxe um pouco de tristeza pra Felícia, mas a distância logrou amenizar a dor do amor perdido. Depois veio o sr. Bartolomeu Laruccia, polignanês, belo exemplar de italiano, lembrando Mastroiani, falando com propriedade, como se fosse um carioca, sem nenhum sotaque barês. Veio da Itália com onze anos, fixando residência, com toda família, em Petrópolis. Lia e falava bem o italiano, polignanês e o português, evidentemente. Enamorou-se da bela Felícia, fê-la esquecer o Raphael, casou-se com ela que, em agradecimento, deu-lhe dez filhos, dos quais eu sou o sétimo. Vocês acham que ela teria tempo pra pensar no amor perdido?
Com o Raphael aconteceu, mais ou menos, a mesma coisa. Com os pais, ficou na Itália até depois da segunda guerra. Com a morte dos pais, voltou ao Brasil e, nesse meio tempo, casou-se três vezes, a saber, com Elvira, que lhe dá um filho, que morre muito pequeno, em seguida ela também morre; depois com a irmã dela, Rosina, que também morreu em seguida devido a uma queda e por último, casa-se com Antônia, que lhe dá três filhos. Vem pra São Paulo, disse nunca ter esquecido esta bela cidade e nem o Brás… E nem… bom, deixa pra lá. Chega aqui em mil novecentos e cinquenta e cinco; depois de dez anos, morre a Antônia. Foi por essa época que eu o conheci, Raphael morreu em 1974, com mais de oitenta anos.
Os dados complementares desse relato devo creditar em favor de minha prima (por afinidade) Licena Montanari Carrieri, casada com meu primo Angelo Carrieri, filho de Nicola Carrieri e minha tia Maria, irmã mais nova de minha mãe, Felícia. Licena, polignanesa, chegou a São Paulo em 1955 também. Licena enfrentou forte resistência por querer casar com um membro da família que humilhou muito a família Zuppo. Os tempos são outros…? Nem tanto assim… Com toda essa revolta, Natale Zuppo, irmão de Raphel, casa com Catarina Gravina, filha do "tzi cambere" (tio compadre), Modesto Gravina, o mesmo que diagnosticou a "tuberculose" no Raphael, desfazendo o noivado com a Felícia. Com a "tuberculose", Raphael casou e enterrou três esposas, imaginem se ele fosse um homem "sadio". Estaria vivo até hoje.
Licena, os amigos leitores que curtem as festas de São Vito, devem lembrar dos comerciais na TV, é uma das "mamas" que preparam aquelas delícias italianas nas quermesses. Obrigado a todos.
P.S.: – Licena Montanaro, casada com Angelo Carrieri, cinco filhos, Nicola, Pascoal, Angelo, Marina e Roberto, informante dos detalhes que tive conhecimento recente, é filha de Francesca Zupo e sobrinha de Vitalicena, Madalena, Paulo, Domingos, Francisco, Rafael e Natale Zupo, que voltaram pra Polignano, na primeira metade do século XX, depois do humilhante diagnóstico de "tzi cambere" (tio compadre), Modesto Gravina.
Como podemos deduzir, tudo acabou em pi… não, não… em "ficazza", "piccicatela", "richitela", "cagzouni" etc. (pão de batata, tarales, orelhinhas (macarrão), calzoni etc.).
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