Recentemente, lendo uma revista editada em comemoração aos 50 anos de carreira do "rei" Roberto Carlos, dentre os vários entrevistados ilustres, o sr. José Bonifácio Sobrinho, o "Boni", famoso executivo da tv brasileira, perguntado sobre como conheceu o "rei" Roberto Carlos, respondeu:
– Conheci Roberto Carlos no Braz, sim no Braz.
Aí vem, novamente, aquela minha velha teoria: "quase tudo começou no meu velho e querido Braz".
Boni descreve: – Naquela época (início dos anos 60) eu era diretor de produção da rádio e tv Bandeirantes e fui procurado pelo sr. Enzo de Almeida Passos, que solicitou o aluguel do Cine Piratininga para festejar o aniversário de seu programa de rádio. Indaguei se o Cine Piratininga (por ser grande) não seria um exagero, e ele disse: "Ao contrário, vai ser pequeno, dentre meus convidados virá o cantor Roberto Carlos”.
Boni solicitou autorização para o presidente, sr. João Saad, e providenciou a locação. Disse Boni ao interlecutor: – Não conhecia pessoalmente o cantor, e, após as devidas providências, no dia do evento, estava me dirigindo ao bairro do Braz quando deparei com um trânsito imenso, desde o início da Avenida Rangel Pestana. Parado, solicitei a um guarda de trânsito que me ajudasse a chegar mais rápido, pois eu era o produtor do show, e o guarda disse: "Então, o sr. é o culpado por este trânsito, chamaram o Roberto Carlos para cantar no cinema, vai ser difícil o sr. chegar rápido”.
Após ler este relato tive um imenso orgulho de saber desta passagem envolvendo o meu velho e querido Braz e duas figuras tão famosas, e lembrei que também tive envolvimento com este acontecimento, explico:
Como todos já estão cansados de saber, "sou do Braz", e naquela época vivia o início de minha adolescência, e, óbvio, era fã de Roberto e cia. ltda. E, além disso, tinha muito acesso ao Cine Piratininga, porque além de conhecer o porteiro, sr. Olavo, era "colaborador" da gerência, distribuía folhetos da programação de final de semana do Cine Piratininga em troca de ingressos (quer dizer, tinha ingresso para sábado e domingo, incluindo a matinê de domingo).
Ah! A matinê de domingo, que saudades! Logo após a missa na igreja Bom Jesus do Braz, que inocentemente íamos (quase) sempre para "paquerar", usávamos o túnel que atravessava a avenida, e seguíamos para a matinê, ou melhor, para a saborosa matinê do Cine Piratininga. Onde sinto até hoje, quando me recordo, daquele aroma de inocência, mesclado com gosto de breves beijos e leves toques, que eram na verdade "lampejos de romances", que quase sempre não duravam mais do que uma matinê de domingo.
Bom, deixa pra lá, volto ao meu envolvimento com a festa de aniversário do programa do Enzo de Almeida Passos, lá estavam quase todos os ídolos que iam, em breve futuro, fazer parte da "jovem guarda", desde Sérgio Murilo, Tony Campello, Celi Campello, Ronnie Cord, Carlos Gonzaga, que já eram ídolos, como os que estavam despontando para o sucesso, nomes quase famosos, nomes já famosos e assim por diante. O Cine Piratininga estava literalmente lotado de público e ídolos, e, logicamente, eu e meu amigo Hugo Novelli (o Hugo loiro) também estávamos lá.
O Cine Piratininga tinha sua entrada principal na avenida, e uma saída, talvez de emergência, ou estratégica, ou ainda secundária, não sei qual era a razão, mas tinha outra porta na Rua Martim Burchard. E era lá que os artistas chegavam e saíam, e oportunamente tive uma brilhante ideia: como tinha acesso livre, e estava com meu amigo Hugo, que tinha uma cabeleira tipo "água de salsicha, algo parecido com cavaco de bronze", e era bastante, digamos, "exótico", parecia um "gringo", e naquele movimento de empurra-empurra que estava acontecendo na entrada dos artistas, com o público, principalmente o feminino, aglomerado, eu e o Hugo, a cada vinte, trinta minutos, aparecíamos vindo de dentro do cinema para fora pela Rua Martim Burchard, e nesses momentos éramos ídolos, as meninas gritavam, gesticulavam, pediam autógrafos, e perguntavam quem éramos ou em qual conjunto tocávamos e assim por diante. Naquela confusão nós inventávamos um nome ou um conjunto, e pronto, éramos artistas, e elas, como estavam do lado de fora, não viam nada lá dentro.
Só sei que naquele dia eu e meu amigo Hugo tivemos nossos minutos de fama (na porta do cinema), com tamanha "cara de pau" que, às vezes, até (pelo menos eu) acreditei que era um ídolo.
Quando o show terminou, quando todos foram embora, sentimos uma imensa alegria de, além de nos divertirmos muito, termos a satisfação de compartilhar como fãs, e de vez em quando como ídolos, daquela festa.
Restou para mim esta maravilhosa lembrança, dentre outras centenas, e tenho certeza de que também colaborou para manter este amor incontestável que tenho pelo meu "velho e querido Braz”.
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