Trauma e transtornos na primeira visita a São Paulo

Em 1981, após ter me mudado para o Rio de Janeiro, além da saudade dos parentes e amigos, sentia falta de muitas coisas de São Paulo.

Se fosse relacionar essas coisas, a lista seria imensa. Citaria lugares, pessoas, passeios, comidas, cinemas, programas de rádio (foi difícil passar a dormir sem ouvir a voz de Ana Maria Penteado do programa "É Noite Tudo Se Sabe", da Jovem Pan). E por aí vai.

Quando conseguia viajar para São Paulo, procurava sempre ir a algum restaurante que gostava (Almanara, Speranza, Um Dois Feijão com Arroz, Filé do Moraes, dentre outros), ou mesmo comer churro na Mooca, pastel de feira, sanduíche de mortadela do Mercadão…

Numa viagem a serviço, em que teria de retornar ao Rio no mesmo dia, voltaria comigo um rapaz que havia chegado a São Paulo também naquele dia, tendo vindo, porém, de Fortaleza. Esse rapaz, com quem falava freqüentemente por telefone, mas só conheci pessoalmente naquele dia, nunca havia estado antes em São Paulo, ele era do interior do Piauí, sendo Teresina e Fortaleza as maiores cidades que conhecia.

Pelo horário que saímos, não daria para fazer muita coisa na cidade, e como nosso vôo sairia de Congonhas, resolvi ir de metrô até a Liberdade, onde um passeio é sempre muito interessante, principalmente para o meu companheiro que ia pela primeira vez.

Estava tudo indo bem quando, já no metrô, tive a (in)feliz idéia de descer na Estação São Bento e passar na Casa Califórnia, que ficava na Rua São Bento quase esquina com a Rua Direita. Pensei em comermos um sanduíche e levar para viagem aquela saborosa linguiça de Bragança.

Na escada rolante de saída da estação São Bento, notei uma mudança no comportamento do rapaz, que até então se mostrava falante e entusiasmado, afinal, a reunião tinha sido muito proveitosa e ele estava viajando para o Rio de Janeiro, sonho de todo nordestino, onde trabalharia na quinta e sexta para curtir o final de semana.

Quando saímos da estação do metrô, meu companheiro simplesmente "travou". Essa é a melhor palavra para definir o que aconteceu, pois ele parou de andar, de falar, quase não piscava e ainda ficou com a boca aberta.

Fiquei sem saber o que fazer, imaginei logo que ele sofria de alguma doença e estava tendo um ataque ou convulsão. Fomos salvos pela solidariedade das pessoas que, percebendo a situação, nos conduziram a uma sala na estação do metrô, onde ele recebeu atendimento médico por mais de uma hora.

A paramédica do metrô depois me informou que ele teve uma "crise de pânico ao se deparar com muitas pessoas vindo no sentido contrário", e que havia registros de outras ocorrências desse tipo naquela região. Realmente, a massa humana, que nos finais de tarde desemboca no metrô vindo das ruas São Bento e Boa Vista, é de assustar até aos paulistanos.

Quando diminuiu o movimento, pegamos na Rua Libero Badaró um táxi para Congonhas, onde meu companheiro, ainda meio abalado, fez as alterações de passagens, cancelando sua ida ao Rio viajando para Fortaleza. O que me deixou muito triste por ele.

Só um mês depois tive nova oportunidade de ir à saudosa Casa Califórnia, e certamente nesse dia devo ter batido o recorde de sanduíches comidos por uma pessoa.

Abraços.

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