Bom Retiro em capítulos – parte I

Bons tempos aqueles, quando os meninos do Bom Retiro faziam guerras nas ruas, pegavam canarinho na várzea (onde hoje estão as marginais do Tietê), pescavam traíras e lambaris no rio, então limpo, bonito.

Os velhos moradores do Bom Retiro gostam de contar estas histórias, das primeiras décadas do século passado, quando tantos imigrantes italianos se instalaram no bairro.

Bom Retiro, começo do século passado até os anos 20.

Era o tempo das trocinhas – bandos, bandos de meninos. Os meninos faziam guerra na rua – guerra de verdade; valia pedra, valia até a terrível ronqueira que tinha em sua fórmula as cápsulas das velhas revoluções… Quanto menino não se desgraçou nas tuas guerras, Bom Retiro?

Era o tempo de tanto jogo de bola – bola de meia, bola de borracha, bola de papel -, o Bom Retiro vivia para a bola. Eram tantos campos, tantos golpes. Estudavam catecismo os diabos daqueles meninos para ganhar santinho e poder jogar na canchinha dos catequizadores. E era aquela emoção. Saltava-se com facilidade dos timinhos do Bom Retiro para o Corinthians… o Palestra… Sempre havia um sócio dos grandes clubes de olho mirando teus meninos, Bom Retiro.

E era tal de pegar bonde e saltar de bonde, cobrador desesperado – como pegá-los? E era um tal de pegar canarinho na várzea, de pescar na várzea, de percorrer a várzea na tarde, na madrugada, na manhã; em cima de barquinhos percorrer os alagados e pescar tantos peixes… E ali onde é hoje o campo da Portuguesa caçavam-se rãs, num lago… Ali… Ali…

E todos estes encantos e tantos outros fizeram tanto mal aos teus habitantes, Bom Retiro… tanto mal… Porque eles nunca mais puderam te esquecer… Nunca mais… E pensam tanto em ti, velho Bom Retiro.

(Um dia destes, o erudito senhor Júlio Bernardi, que é teu historiador, Bom Retiro, esqueceu por alguns momentos as lindas edições de Homero, Dante ou Cervantes, de sua biblioteca, numa casa da Silva Pinto, e foi passear na babilônica José Paulino, para onde vem gente de todo o Brasil comprar confecções que ali mesmo são fabricadas. Não. Não era dia. Era noite. E não era uma noite qualquer. Era uma noite de Ano Bom. Ele ficou olhando aquela rua… olhando, e não havia nenhum foquete, nem sinos, nem nada… Mas ele pensava em toda a gente que viu por este bairro, nas tardes e noites da antiga José Paulino – em todas aquelas famílias sentadas em cadeiras, debruçadas nas tuas janelas, Bom Retiro, e nos velhos lampiões a gás… E ele começou a chorar – como escreveu, certo dia, no teu jornal -, e ele agradeceu a Deus "ter nascido e vivido neste Bom Retiro e assistido através dos anos às suas mais belas transformações".)

E Júlio foi para o Brooklin…

E foi este senhor Julio Bernardi quem falou, para Marcos Faerman, numa tarde de muita chuva, que sempre fazem os moradores bem antigos deste bairro olhar para o céu e pensar nas grandes enchentes do passado – como aquela de 29… ah, 29… Pois foi este senhor, Julio, quem disse que uma das pessoas mais tradicionais (ou mais tradicional) do Bom Retiro, de seis, sete anos, foi levada por sua família para um lugar muito distante, o Brooklin.

Ter 96 anos anos e viver longe do lugar que se amou toda a vida é triste. Imaginem: muitas ruas do Bom Retiro têm nomes da família Thomás… E Luiz Sérgio Thomás estava no Brooklin… Mas ele era um homem muito rico – não foi bem nos negócios, o pobre velho – e perdeu tudo, tudo… quase tudo… Quem se saía sempre bem era o pai dele, Pietro Pacífico, um imigrante italiano que aqui chegou no fim do século dezenove – e o senhor Luiz Sérgio, em sua cama, pela velhice, pela perna que quebrou pouco antes da morte, bem que tentava escrever a história da sua família… do pai…

Ele mostrava, ao lado da cama, um caderninho. Letras manuscritas, azuis. A história dos Thomás começava assim, segundo a lavra de seu autorizado narrador (que disse: "nunca vou escrever até o fim. Que pena".).

Continua.

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