"Ensina-me a contar os meus dias, e quando envelhecer saberei como viver"
Mateus
Aquela manhã amanheceu cinzenta como nunca, e eu, que sempre acordara cedo nos últimos anos, já me apercebera disso. O mau tempo se refletia em meus problemas, somatizava dores em todo o corpo.
Eram sete horas e já estava preocupado com minha visita quase que diária ao banco, pagar as dívidas vincendo. Acostumara-me a ler antes de dormir, mas na noite anterior não conseguira – o enfado não permitira -, achara todos os livros inúteis.
Levantei-me e fui ao banheiro. Havia retornado a sensação dolorida nos rins, uma pressão forte comprimia a bexiga, além do jato duplo de urina a esguichar. Preocupei-me: predizia-se a necessidade de outro exame na próstata? Recordei-me do mais recente, o toque feito pelo jovem urologista que havia deixado os dois constrangidos, apesar da magreza do médico, que era correspondida pelo seu dedo anular, proporcional ao corpo.
Brincava com coisa séria, era uma das estratégias para espantar a tristeza e a preocupação.
Pela segunda vez o castigo me seria imposto. Lembrei-me da cirurgia das hemorróidas de tempos atrás, da horrível dor quando defequei no pós-operatório e do estado lastimável em que fora à mesa de operação, incentivado à cirurgia no lugar do congelamento pelo Dr. Gastón, meu chefe na época, o qual dissertava sobre dores anais com conhecimento enciclopédico. Mais tarde vim a descobrir sua condição de homossexual.
Ouvi o jorro da urina bater no vaso e fora dele, eram dois jatos. As paredes de flácidos tijolos não possuíam a acústica perfeita ou necessária – será que o vizinho ouvira o silvo da ducha a esguichar? O que importava? Quantas vezes eu disfarçara ao perceber pela veneziana o senil a jogar biriba sozinho, consigo mesmo, alterando seu posicionamento nas cadeiras em cada jogada necessária? Quando chegasse àquela idade, pensei, se tivesse que me enfrentar no jogo, pelo que o destino me tinha reservado, perderia até de mim mesmo.
O dia começou a clarear, os pássaros do jardim do condomínio começaram a cantar, e logo em seguida seus cânticos eram encobertos pelo piar monocórdio do sabiá-laranjeira, que retornara de férias, repetindo seu sonido intolerável e ensurdecedor.
De volta ao banheiro para urinar, comecei a apalpar a veia necrosada no pênis. Acreditava em nova causa do duplo jato, em novo motivo de estar vergado. Era a tal doença de Peryonie, três mil reais a cirurgia, mais despesas de internação, anestesista, remédios, tudo para desentortar o passarinho, hoje modernamente alcunhado de bráulio. Compensaria consertar a verga?
Ela reagiu: num devaneio erótico começou a gesticular e a manipular no seu berço esplêndido, a ganhar contornos e expressões, umedecendo a cueca com sua urina incontida.
A dúvida continuava. Uma crescente tendência ao caos me impregnara os pensamentos, a freqüência das ereções diminuíra nos últimos meses – estariam no fim?
Lembrei-me dos antigos e primeiros orgasmos quando, menino, na ausência de meus pais, escolhia cantos ocultos da casa para masturbar-me com revistas de Carlos Zéfiro. As mulheres eram idealizadas conforme meus sonhos.
Esses pensamentos trouxeram-me vestígios do passado, remeteram-me à infância, causando sensações de lembranças antigas, recordando odores e fundindo-os ao presente, confundindo o que foi com o que gostaria que tivesse sido. Relembrei os colegas do primário, a turma de 38 alunos dos quais somente oito passaram de ano e trinta repetiram, o maior índice de reprovações que conhecera. Onde se encontravam? Como estariam? O que o destino havia lhes reservado? No caminho, quais as pedras que encontraram? O que foi feito do portafólio de sonhos?
Fui ao quartinho dos fundos apanhar a fotografia da classe. Meditando sobre o retrato, comecei a relembrar as figuras da foto: Os Pixoxós, Farid, Milton, Miguel, Menê, George, Malandrini, João Ardito, Chinin, Barone, Marcelino, Cosmo, Diógenes, Dona Zelina (substituta), residia no prédio onde ficava o Expresso Brasileiro (Avenida Rangel Pestana com a Rua Frederico Alvarenga), além de João Sussio, Gabriel Alarcon, Nenê, o saqueiro, Cabeção, Zé Galinha, e outros.
Antes, diversas vezes relutara em apanhar a foto na caixa, evitava acordar minha esposa, que estivera, como todas as noites, na espera do Jô Onze e Meia, a viajar pela sala, revirando maçanetas, fechando gavetas, vigilando as chaves nas fechaduras das portas, no crepúsculo da madrugada, encerrar sua peregrinação com algumas reviradas na cama, forçando-me a acordar, algumas vezes, com a chave de pernas no baixo-ventre para o compromisso do sexo.
Alguns livros me haviam levado a definir esses hábitos como hipnofobia: medo de dormir, terror que advém durante o sono. Policiava-me, pois lera nesses parachoques de caminhão de estrada que, antes de criticar os defeitos da mulher, devemos lembrar que foram eles que a impediram de arranjar um marido melhor.
Analisando as características dos personagens da foto de infância, acreditei que tudo já estava mais ou menos determinado, escrito pelo destino, nas estrelas ou em nuvens negras. Recordei um a um.
Cabeção, o Walter Alarcon, que me constrangia quando dizia ser meu primo, pelo fato de sua avó ser prima de minha avó em segundo grau. Comentava-se, na época, que ele era assim, cabeçudo, por causa da meningite contraída ao nascer, obtendo uma espécie de salvo conduto, o que tornava suas loucuras perdoadas. Reuníamos-nos no início da construção da Avenida Alcântara Machado, ele evacuava em duas folhas de jornal velho, acobertado pela nossa roda de amigos. O bonde (Mooca 33) partia e, ao menor sinal do cobrador, arremessávamos as fezes nos passageiros e retirávamo-nos em disparada, escondendo-nos nas ruas e vielas escuras e inacabadas do Brás antigo. Hoje se sabia de fonte segura que possuía banca de frutas nas feiras livres da zona leste, tinha construído família, era avô, não tinha vícios, continuava corinthiano fanático e meio louco, mas bom pai de família.
Gabriel, o que sofrera de disritmia cerebral a vida toda, sustentava a família na época vendendo limões na feira, uma dúzia CR$15.00, um cruzeiro cada. Não conseguira terminar o curso de torneiro no SENAI, pois diversas vezes lhe dera o ataque com o torno ligado, além de, num acesso de loucura, ter jogado os sapatos do mestre no telhado. Também tinha uma absolvição prévia, a epilepsia. Quando ouvira comentários de que estava casado, que havia construído família, que tinha dois filhos sãos e esposa com quem vivia bem, fiquei em dúvida: Gabriel, na infância, era um perfeito ator, simulava e dissimulava com perfeição, e talvez estivesse interpretando essa situação, gerando esses comentários. Não, quando ele trombou com as torres da iluminação do campinho de futebol do Parque Infantil Dom Pedro II quase desmaiou, o acidente exprimia a verdade. Nos dias atuais soubera, havia partido junto ao Senhor.
Recordei-me os irmãos Pixoxós, geneticamente malvados, de triste lembrança, que uma vez me empurraram nas águas da piscina do Parque Infantil Dom Pedro II, quase ocorrendo meu afogamento, pois não sabia nadar. Quando me perguntaram o que havia ocorrido, era tão pequeno que respondia "me afogui", com esses erros de português da infância, agradáveis de ouvir. Nunca mais eu soube da dupla.
Ah, olha aqui! – pensei em voz alta -, o Zé Galinha, cujo apelido já predizia o triste fim, notória era a sua habilidade em roubar doces de semolina da bandeja do Habib enquanto este andava carregando-a e equilibrando-a na palma da mão. Tirava as caixas de fósforos dos bolsos dos colegas fumantes com um simples toque, com a unha do polegar, sem que estes percebessem. Cedo se profissionalizara nessa atividade. Morrera prematuramente, assassinado – mau uso da precocidade.
O João Sussio, ao lado do Cabeção na foto, não gostava de banho, por isso o apelido. Unhas grandes e pretas nas mãos e nos pés, era viciado no jogo de cavalos, sabia da vida de todos os jóqueis e respectivos equinos. O pai era alcoólatra, tomava tudo o que encontrasse para beber, mas, quando sóbrio, era um mestre da oratória, tamanha a quantidade de vocábulos que conhecia, e sua verbosidade era admirada por todos. Nada se sabia dele, onde andava, o que tinha, onde estava, ficara somente a lembrança de João Sussio correndo atrás do pai, que levara a brocha do pintor vizinho para vender. Em recente encontro com amigos do passado soube, havia falecido, o excesso de cigarros o levara com a doença ruim.
Na frente, sentado ao lado da diretora, João Aldo Ardito (que nome pomposo e nobre!), um dos oito que passaram. Sabia-se que estava casado, era auditor de multinacional, bem posicionado na vida, tinha alto salário, carreira formada e futuro promissor. As últimas notícias foram a do encontro na festa de aniversário do compadre, de onde acabou saindo cedo porque sua esposa havia presenteado o aniversariante com portanotas, do qual se esquecera de retirar notas e bilhetes antigos, denunciando que o mimo era usado. Na ocasião comentou-se, na ala feminina, que ela estaria tomando remédio para frigidez, que perdera a libido. Fofocas dos anos 70…
Continuei a admirar a foto, a pensar, a refletir, e a analisar. Dona Guiomar, lá estava ela, altiva, a professora de curvas arredondadas, uma milagrosa cintura 38, seios fartos, primeiro amor, minha primeira paixão. Admirava seu comportamento dócil, sua liderança por meio de suas próprias maneiras e personalidade, rigorosa com aquele bando incontrolável, sem se utilizar truculência. Firme e, ao mesmo tempo, polida e bem-educada, infligia ao grupo ações pedagógicas de moralização sem ser policialesca. Sentia ciúme quando, malandramente, no término das aulas, os alunos tumultuavam a saída, criando um trem empurra apertado para poderem, dissimuladamente, enconchá-la.
Eram dez horas, o banco estava abrindo e, na fila, a espera de a porta eletrônica ir liberando as pessoas, na esperança de não emperrar ao menor objeto de metal. Aguardei nervosamente chegar minha vez, na fila maior, de segunda classe. A crise financeira diminuíra meu saldo médio, transferindo-me de fila após retirarem minhas estrelas, levando-me à classe mais inferior de correntista.
Dei uma espreguiçada, respirei fundo para me acalmar e vi em outra fila, a dos aposentados, provavelmente a de terceira classe, uma senhora de 75 anos mais ou menos a fitar-me demoradamente. De onde a conhecia? Seria a dona da rotisserie que frequentava nos anos 60 na Mooca? Estivera com ela, mas não sabia onde. Comecei a lhe retribuir os olhares e admirá-la na fila com seu carnê em mãos, cabeça erguida e ombros retos. O sorriso alvo de prótese brilhava, fazendo proceder a afirmação de que uma das vantagens da velhice é poder assoviar enquanto se escova os dentes. E ela, com entusiasmo, cumprimentava a todos – onde encontrava tanta firmeza?
O silêncio tomou conta do banco – três ladrões encapuzados deram a ordem: é um assalto! Foi a oportunidade que tive de conhecer o 38, sim, o revólver 38. Sempre ouvira falar nele, mas nunca o tinha visto de perto. O fascínio era mais pelo número, que me acompanhava cabalisticamente por toda vida, 38, o coelho no jogo do bicho, e meu apelido de infância.
O poder estava nas mãos dos marginais, mas a velhinha continuou a fitar-me em silêncio, apesar da situação inusitada, agora com meio sorriso, porém mantendo aquele discernimento superior de vida nas faces. Os assaltantes, arrogantemente, gritaram para todos deitarem-se no chão, e a ordem foi obedecida rapidamente, salvo pela velhinha que, com elegância e estilo, sentou-se antes de deitar, preocupando-se em não amassar o vestido, continuando com meio sorriso, apesar dos lábios semicerrados – era uma fidalga. De onde a conhecia? Por uns instantes, pensei que tinha lembrado… Relutei: não, não era, e ela continuava a olhar-me com curiosidade.
O assalto terminou, e ela, impávida, reiniciou o diálogo com seus companheiros de fila, com o mesmo entusiasmo e a mesma energia positiva. E eu, que sempre achara aquela geração amaldiçoada… Retirei-me após efetuar os pagamentos, em estado de êxtase e inebriado com a senil figura. Ela me catequizara, havia posto ordem e estilo na minha maneira de envelhecer.
Retornando ao leito das ruas, voltei a irritar-me: buzinaços agudos, ruídos de pneus em brecadas longas e secas, fumaça dos ônibus, tráfego difícil, e a velhinha sem sair de minha cabeça. De onde a conhecia? Seria figura de filme americano, incrustada no meu inconsciente? E nela pensava compulsivamente.
Com pressa cheguei em casa, sentei-me ofegante com o coração a latejar, acompanhado, em seu ritmo rápido, pelas artérias da cabeça. Aconcheguei-me na poltrona de espaldar alto, minha preferida, onde meu corpo deixara as marcas de suor como silhueta. E a velha simpática povoando meus pensamentos… de onde a conhecia? Seria ela figura abstrata com poder de invisibilidade que vinha me alegrar por alguns minutos a mando de alguém com poder maior? Ia acabar ficando louco, pensei.
Senti o gosto da infância na boca, a descer pela aorta e alojar-se no estômago, como o esfriar na barriga que sentimos na primeira paixão. Pensei na minha mãe, sozinha aos 91 anos, internada na instituição de caridade, aguardando a morte chegar sem ser paciente terminal. Lembrei-me de meu pai, com quem nunca sonhara, ou, pelo menos, não me lembrava de ter sonhado. Eram passados 24 anos da grande viagem. Pensara, quando jovem, em alterar-lhe o comportamento, mas era impossível, pois recebemos nossos pais em idade difícil de mudar-lhes os hábitos. Agora que era pai, avô, pensava diferente, imaginava o pai expressivo, equilibrado, confiante, ele que em vida estivera sempre desorientado, tinha certeza, ele sabia agora onde caminhar, possuía um olhar dócil, fixo e sonhador, transmitindo expressão e brilho de certeza, aquela certeza que somente algumas entidades possuem, tais eram sua luz e sua claridade.
Pensei em encontrá-lo. Mas e se a morte fosse o fim? E se a eternidade existencial fosse um blefe? Não arriscaria, o caminho curto nunca é o melhor. Mesmo porque a fé, essa advogada de Deus, sempre me fizera acreditar que sempre é possível. Era melhor contentar-me com o que tinha e esperar a morte de forma tranquila.
De manhã, o dia cinzento havia se prenunciado triste, e a profecia matinal estava sendo confirmada – o dia era agitado, melancólico, cheio de dúvidas, dividas e tristezas, e sentia um evidente desconforto.
E a senil elegante e graciosa não me saía da cabeça. Era aquela segunda-feira a dos enforcados, dos condenados, dos agitados ou dos curiosos? Quem era aquela mulher? Necessitava alterar o ânimo, encerrar a espiral de amargura e de recriminações que me vinha atingindo. Leria dicas de auto-ajuda: Não se concentre nos ressentimentos, isso torna os problemas mais graves, sorria, cumprimente a todos. Mas que me valiam essas palavras se nada disso me convencia? Lembrei-me da velhinha (de novo ela). O fato é que aquela figura não saía da minha cabeça. Pensei em tomar um banho de descarrego com sal grosso – esqueci, o sal havia terminado no churrasco de domingo, havia me informado a esposa.
Adormeci na poltrona com a dúvida – quem seria a velhinha? Estava resignado, por não me lembrar de onde a conhecia.
De repente, num salto brusco, levantei-me da cadeira, num misto de exaltação e euforia. Meu rosto se iluminara: – Já sei! Já sei! Repeti a frase com inflamada convicção. – É ela! É ela. Descobri finalmente quem era a mulher idosa da fila no banco: era dona Guiomar, minha idolatrada professora, a eterna paixão de minha vida, a do retrato amarelado, da cintura 38. A que me ensinara a ler, e que agora me ensinava a envelhecer e a viver, e não morrer.
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