Trágica Recordação

Ao ter meu primeiro carro, fusca, verde-amazonas, 69, eu e a Myrtes começamos a fazer planos de viagens. Por impossibilidade financeira e com os filhos chegando (cinco), pra nunca mais nos abandonar, graças a Deus, a solução foi acampar e rápido, pois a idade também vai chegando pra nunca mais nos abandonar, infelizmente.

Quem já acampou sabe que precisa de preparo físico pra armar, desarmar barracas, acomodar no porta-malas do carro etc. A esposa, também, pra cozinhar, cuidar das roupas etc. Enfim, pra acampar, além de espírito esportivo e vontade de conhecer novos lugares, o indispensável é juventude, espiritual e física; como a juventude se evapora e ninguém na faixa de 40/50 anos pode se considerar fora de combate, vai gozar bastante do saudável hábito de curtir um acampamento. Se tiver grana, nada supera um bom hotel, evidentemente.

Fico sócio do CCB (Clube de Campo Brasil), uma empresa muito boa nessa área. Tenho vizinhos que também gostam de acampar; entre eles, o Wilson Cabral, comandante da Varig (nos bons tempos…) que, nas viagens/trabalho ao exterior, sempre traz novidades em matéria de vivência campal. Adquiro dele, além da barraca francesa (muito boa), colchões e travesseiros de ar e outros pertences a esse esporte.

Tenho uma Kombi (a Myrtes, nos primórdios do transporte escolar…); combino com o Wilson e outro vizinho: vamos acampar no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca. Lá tem uma área de acampamento do CCB (hoje, no local, está o Shopping da Barra); conhecer, além do Rio, também Petrópolis, Teresópolis etc. Por essa época, janeiro de 1974, recebo a visita do meu primo norte-americano Vito Laruccia (já falecido), esposa e filho (John).

Hospedados na casa de uma prima comum, John manifesta desejo de conhecer o Rio de Janeiro. Desejo de americano é como desejo de mulher grávida: tem que ser satisfeito. Explico que hotel “never; money is short, caro Giovani”. Fica deslumbrado; ele prefere assim, tem espírito de e é jovem (28 anos).

Em três carros, vamos para o Rio. Acampamos na Barra, um calor de rachar; dormindo em barraca é uma delícia. Estamos em janeiro, o carnaval está próximo e o John me pergunta: “Mô, eu gostar de ver escola de zamba, quer ver uma”. “John”, expliquei, “não conheço o Rio como conheço São Paulo, vou ter que me informar…”.

“No, no, Mô, no quer te incomodar”, me interrompe John, no português aprendido com o pai que, por sua vez, aprendeu com meu tio, João Batista Laruccia, irmão de meu pai, pai do Vito, avô de John, que nunca chegou a falar inglês, corretamente até morrer.

– Eu vai sozinho, Mô.
– Ahh, não… É muito perigoso.
– Aqui americano tem muita vantagem, todo mundo fala inglês, pode ficar tranqüilo…

Fala e vai embora. Volta à noitinha, alegre e contente com o que viu, ouviu e a companhia que ele traz a tira-colo: uma garota bonitinha de seus 18, 20 anos. “Mô”, pede ele, “essa garota, Neusa (nome fictício), conheci na escola de samba. Ela é de São Paulo, precisa voltar amanhã de manhã, vai tomar o ônibus pra trabalhar, dia 1 de fevereiro, depois de amanhã. Ela pode passar a noite conosco, na barraca?”. Concordei e mostrei a ela o desconforto em dormir no acampamento. Ela, mostrando-se simpática ao extremo, disse não se importar e agradeceu bastante a oportunidade.

Usaram o resto da noite, linda de morrer, estrelada e quente, para um passeio pela orla da praia; o John, dando mergulho na praia da Barra que só ele suportava, gelada, 13 graus, quando a temperatura do ambiente é de 41 graus. Foram deitar bem tarde e, bem cedo, acompanhou a Neusa até o terminal de ônibus. Convidei-a a passar mais um ou dois dias, pois eu também estou de saída. Agradeceu bastante e, nas poucas horas que ficamos conversando, deixou a impressão de ser uma garota correta, decente e percebi, nos olhos do John, que ele estava apaixonado.

Dia 31 de janeiro, Neusa embarca pra São Paulo e nós, dia 2 de fevereiro. Depois de uma boa noite de sono, de madrugada, desmanchamos a barraca e voltamos pra casa, sem ouvir nenhum noticiário. Chegamos à noitinha, depois de uma viagem tranqüila. John mostra ansiedade em ligar logo pra sua Neusa – ela deu o número do telefone. Chegamos em casa, pega o telefone e liga. Fica ouvindo sem entender muito bem, me chama e diz: “Mô, não entendo, deve ser a mãe dela, está chorando”.

Nesse momento, acabo de ligar a televisão e o noticiário está mostrando as cenas do grande incêndio no Edifício Joelma. Pego o telefone e falo com a pobre senhora, e ela me diz que a Neusa foi trabalhar, de manhã e não voltou até agora…

– E onde ela trabalha, pergunto eu…
– Nesse prédio que pegou fogo, o Joelma…

Procuro acalmá-la, dizendo que o trânsito ficou congestionado e essas coisas atrapalham bastante; logo, logo a Neusa vai aparecer. O John não deixa por menos: quer saber o nome dos hospitais que estão recebendo feridos. Já é bem tarde e convenço-o de deixar pro dia seguinte pra procurar a Neusa.

O pavoroso incêndio do Joelma ocorre depois de um curto-circuito no 12º andar, no dia 1 de fevereiro de 1974, na Avenida 9 de Julho, 225, com duas fachadas pra Praça da Bandeira, deixando 179 mortos e 300 feridos. Entre os mortos, está a Neusa, cujo corpo o John encontra no necrotério, aparentemente sem nenhuma machucadura. Morreu asfixiada, dentro de um elevador.

O terreno em que foi construído o Edifício Joelma é onde existia a casa do professor Paulo Gonçalves, que matou a mãe e duas irmãs, enterrando-as no poço, já desativado, no quintal. Descoberto, matou-se em seguida, levando consigo o mistério da razão desse pavoroso crime.

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