Toda a história começa na Tupi

Lendo o depoimento do meu amigo, Nagib Anderáos, animei-me a enviar o meu também. E é engraçado como a memória nos prega peças e vemo-las discordar em detalhes que, antes, pensáramos ser absolutamente idênticos! Mas são pequenos detalhes. Passemos aos fatos.<br><br>Minha história começa em fevereiro de 1961. Eu tinha nove anos e desde há muito insistia com meus pais que eu era um ator e queria ser levado para conhecer o casal Julio Gouveia – Tatiana Belinky.<br><br>E o dia chegou, em que consegui. Aliás, à noite. Eu e mamãe fomos de táxi até o Sumaré e enquanto ela explicava aos porteiros à que vínhamos eu, magérrimo e “mignon”, esgueire-me por entre os passantes e defrontei-me com aquele caótico emaranhado de corredorzinhos atopetados de pessoas apressadas que sequer pareciam me ver enquanto eu tentava perguntar onde ficava um tal de TESP ( que eu não sabia exatamente o que era).<br> <br>Passados o que, para tão pequeno ser, parecera uma eternidade em um mundo hostil e “sem sombra da mãe”, sentindo-se devorado, cada vez mais, para o âmago daquele monstro e que, sintomaticamente, me causava enorme prazer, eis que deságuo, de repente, em uma pequena clareira que era, na verdade, uma pequena sala, com quatro portas (eu entrara por uma delas, claro) e tinha por mobiliário um grande banco de madeira envernizada. Três estavam fechadas (uma eu acabara de fechar) e uma entreaberta.<br><br>Tremulo… Bati nela. Nenhuma resposta, mas eu ouvia uma máquina de escrever martelando lá dentro. Atrevi-me, empurrei-a e entrei. Aquela montoeira de pano roxo (um vestido esquisitão?) encimado por algo que lembrava uma gigantesca e revoluta peruca negra seria… Uma… Mulher?<br>- “oi!”<br><br>E pela vez-primeira eu entendi que saíra do mundo infantil para a realidade! A "figura" virou-se com fúria para mim! Sufoquei um grito na garganta! Não era uma mulher apenas! Ivan José cara a cara com a figura que tantas vezes o aterrorizara com seus fabulosos desempenhos nas TVs de Vanguarda!<br><br>-“Quem ousa me importunar enquanto escrevo?”<br>… meus gens rapidamente se conectaram e passei a ser um profundo conhecedor de todos os mistérios da tragédia grega! E isso me obrigou a responder, no mesmo tom:<br>- “Eu sou Ivan José! É a senhora é a Wanda Kosmo! Uma grande atriz, se quer saber!”<br><br>E… “plim”! Magicamente todos os tons de roxo acinzentado da sala transmutaram-se em róseo sutis e o cheiro de mofo metamorfoseou-se no exótico almiscarado âmbar que emanou do sofisticado e caríssimo condicionante Francês que, do teto, em um átimo, “desestressou” e platinou os cabelos da, agora, ex-bruxa, minha enviada Fada Madrinha!<br>- “Muito prazer, meu-galante-pequeno-cavaleiro Ivan José!”<br>“Ah”, que aperto de mãos suave, que hálito doce! E o tom da voz dela, imediatamente, me transformou de apenas menino em menino poeta!<br>- “Que posso fazer para te ajudar, minha-criança-perdida?”<br>- “Você…” <br>- “Você? Eu disse você?”<br>… Eu disse, sim! <br>- “Você sabe o que é um tal de TESP?”<br>- “ … tesp, tesp, tesp… Espere, deixe-me pensar! Hum! TESP? “<br>(passei a saber como fazer pausas de tensão) <br>“Ahhh! TESP! Sim, eu sei, sim!”<br><br>Não me contive… E aplaudi-a! E passei a saber como fazer agradecimentos públicos com enorme desenvoltura e carisma ímpar!<br>- “Você me leva até lá?”<br>- “Não!”<br>(sem pausa, com ou sem tensão) Não?<br>- “Não! Você já está, praticamente, nele!”<br>- “…já?”<br>- “Já!” – gentilmente me pôs sala afora e apontou para a porta exatamente à frente. Uma das três que continuava fechada e sem sombra da minha mãe.<br><br>- “É ali!”<br>- “Naquela porta?”<br>- “Atrás daquela porta.”<br>- “…E o que eu faço?”<br>- “Você faz o que quiser, mas eu sugiro que bata nela e veja se algo acontece.”<br>- “Boa sorte!”<br>… Antes que eu tivesse tempo de dizer obrigado tudo girou e a Fada voltou a ser Bruxa e a violência com que fechou sua porta me fez estremecer!<br><br>Nota um: voltei a ver Wanda muitas vezes depois. Aquele banco de madeira, ao lado, tornou-se meu lugar preferido para bater texto com minha mãe, colegas e também para longas sonecas sossegadas, alheio a tudo ao redor. <br>Quis o destino que jamais trabalhássemos juntos (embora o Benjamin Cattan tenha me escalado e me dirigido em algumas Vanguardas), mas eu acabara de viver com Wanda a primeira grande "cena" da minha carreira. Com ausência total de platéia.<br><br>… Só então me dei conta de um detalhe: sobre o batente da porta recém batida havia uma minúscula plaquinha onde se lia “tv de vanguarda” e, aproximando-me mais, vejo que sobre a porta misteriosa há outra, igual, aonde se lê “TESP”. Com revigorado animo bato com uma força maior do que desejava!<br>- “Entre.”<br><br>“Ah”, meus amigos… Se por ali houvesse uma única câmera ligada a TV brasileira teria assistido, então, em preto e branco, claro, ao mais maravilhoso desmaio que um ator mirim já concretizara! Mas, como não havia… Eu desisti de desmaiar em vão! Por que eu cheguei a cogitar um desmaio à lá tragédia grega (lembrem-se que era, até aquele momento, a única técnica que eu já dominava por completo)? Por que quem já ouvira milhares de vezes o "entrou por uma porta…" era incapaz de deixar de reconhecer Julio Gouveia convidando-te a entrar em Seu Reino!<br><br>Abri a porta e me deparei com a minúscula e hiper atravancada salinha, King Julius na cadeira da escrivaninha e Queen Tatianas no pequenino sofá vermelho!<br>- “Julio! Olha! Viu? Eu sabia! Eu pressentia! É Ele!”<br>Instintivamente olhei atrás de mim. Sala vazia! E os dois, exultantes, olhavam… Para mim!<br>- “ Meu Pablo!”<br>- “… Quem?” – pergunto, inseguro.<br>- “Você!” – responde Julio – “O Pablo!”<br>- “Bom… Vocês… – pronto! De novo! Chamei o Dr. Julio e Dona Tatiana de… vocês? Chamei!”<br> -“ É… deve está havendo algum engano porque…”<br>- “Por que?” – pergunta-me o agora psiquiatra Dr. Julio Gouveia.<br>- “Ué! Porque eu não sou Pablo! Eu sou o Ivan José!”<br>- “É claro que é!” – diz Tatiana levantando-se, me abraçando e, rindo, me levando em direção à quarta porta (Julio atrás).<br><br>Essa porta nos levou a um novo corredor que nos levou a duas grandes e estranhas (para mim) portas de cortiça (eu acho) e que abertas… Mesclaram, para sempre, a televisão e eu!<br><br>Nota dois: o final desta história e de tantas, tantas outras, você pode ler em fabricaludica.blogspot.com<br><br><br>E-mail:[email protected]