Tenho certeza de que somente os mais antigos recordarão da tal ladeira do Cangaíba. A Penha ainda era um bairro simples e pobre da zona leste cujo centro não tinha mais do que meia dúzia de ruas asfaltadas. A Av. Penha de França era o centro comercial do bairro, mas em seu contorno já havia lojas tradicionais como a Casa das Noivas e a das Panelas, na subida da Rua Padre João; a Drogasil na Rua Dr. João Ribeiro e outras.<br><br>O “programão” das famílias, no domingo, era levar os filhos para passear na Penha e recordo que uma das lojas expunha, em uma vitrine, um boneco automático, de mais ou menos um metro de altura que batia dois pratos metálicos com as mãos, não havia quem não parasse para ver. Ali, com meus quatro anos de idade, vi pela primeira vez as pipocas pulando naquelas máquinas iluminadas, onde eram vendidas em pacotinhos brancos de papel.<br><br>Vivíamos o ano de 1946. Para quem morava na Rua Coperema, como minha família, podia ir andando até o centro. Podíamos ir pela Gabriela Mistral de hoje, que naquele tempo chamávamos de Av. Guarulhos, ou pela Av. Cangaíba. A Av. Guarulhos já tinha movimentação razoável de veículos e pessoas, por ser asfaltada, mas pela Av. Cangaíba o movimento era bem menor, por isso era preferida por nós. Porém, havia alguns inconvenientes: ao sair de casa tínhamos que encarar uma subida imensa até a Av. Cangaíba, depois uma descida incrível, até onde hoje se localiza a Av. Gov. Carvalho Pinto, e, depois, já chegando à Penha, uma subida de deixar a língua de fora, sem contar que era tudo na base da poeira porque não havia calçamento.<br><br>Essa subida era conhecida como a ladeira do Cangaíba e os motoristas dos ônibus que por ela trafegavam tinham ordens expressas para colocar a primeira marcha antes de começar a subida, lembrando que naquele tempo os câmbios dos veículos não eram sincronizados e o perigo deles voltarem de ré era grande. Mesmo assim, aconteciam vários acidentes naquele pequeno trecho envolvendo veículos que não conseguiam subir a ladeira. Hoje, nem parece que existe uma ladeira no local, tamanha é a velocidade dos veículos, mas naquele tempo ela era respeitada. <br><br><br>E-mail: [email protected]