Era sagrado, todo ano acontecia o evento mais esperado do ano, tal qual o Natal: "A quermesse do Ginásio Jesus Maria José". Naquela época o colégio de freiras, tradicional da região de Santo Amaro, era direcionado ao ensino de educação exclusivamente feminina, então não precisa dizer o quanto nós jovens, frequentávamos as saídas das aulas e as missas dominicais daquela unidade de ensino.<br><br>Voltando as quermesses, tudo era muito bem coordenado e elaborado, com ajuda dos pais e mestres e freiras que se esmeravam de corpo e alma para o bom êxito daquele evento anual. <br>E tudo saia de forma perfeita, as barracas de brinquedos (argolas, boca de palhaço, pesca), comidas típicas (bolo de fubá, doce de abóbora, quentão, cachorro quente, pipoca), serviço de som com a famosa oferta de música, em seu eterno chavão: “Fulano oferece a Cicrana esta música como prova de boa amizade”, respeitosamente falando, a incomoda cadeia, que nos tirava de circulação por um bom tempo até aparecer uma alma bondosa que vinha em nossa ajuda.<br><br>Mas o mais esperado era aquele papelzinho colorido, entregues por algum organizador da festa (o correio elegante), que nos deixava na expectativa e curiosidade de quem o mandara, e na maioria das vezes era escrito por algum amigo, só por gozação, nos causando a maior decepção.<br><br>Mas o ponto máximo era a noite de domingo, quando ao final da festa, dançava-se a quadrilha, e nós estávamos ali, para sermos os pares, das mais lindas caipirinhas, depois de uma semana de exaustivos ensaios.<br><br>Garbosamente nos apresentávamos com vestes cobertas de remendos, com bigodes e costeletas produzidos pelo efeito de uma rolha chamuscada ao fogo, com os dentes também escurecidos, pelo mesmo truque.<br><br>Mas era uma felicidade só, estarmos acompanhados das garotinhas que durante o ano inteiro flertávamos, e ali naqueles poucos minutos, com ar de vitoriosos, pegá-las pelas mãos e conduzi-las pela quadra inteira, ao som de uma sanfona marcando os movimentos, e lá íamos arrastando os sapatos:<br>“Anarriê”;<br>“Balancê”;<br>“Olha a cobra!”;<br>“Volta a ponte caiu!”;<br>“Olha a chuva!”;<br>“É mentira!”;<br>“Olha o túnel!”;<br>“Caminho da roça! <br><br>Terminado a quadrilha, nos despedíamos e na maioria das vezes nem pegando o endereço e telefone das nossas musas de uma semana, simplesmente observando elas irem embora, para um dia talvez reencontrá-las.<br><br>Passado isso, levantávamos na segunda-feira com um gostinho de quero mais, torcendo e contando os dias faltantes para junho do próximo ano.<br><br>Pura Inocência, doces recordações, simplicidade, valores tão marcantes, que deram a todos nós os parâmetros para a nossa educação e princípios.<br><br><br>E-mail: [email protected]