Em 1980, mês de maio, peguei o ônibus elétrico ali perto da Estação da Luz, em frente ao restaurante São Carlos, e fui até à Cidade Universitária, para prestar um concurso público no qual fui aprovado, mas, por razões diversas, não aceitei a nomeação.
Lembro-me daquele ônibus maluco cruzando a cidade, muito devagarzinho, subindo a Rua Augusta com tanto esforço, como se estivesse acessando os cumes da Cordilheira dos Andes.
Ao meu lado, uma garota de óculos redondos, tipo mulher maravilha, lia um livrinho do Che Guevara, com a foto do guerrilheiro argentino estampada na capa. Em um banco próximo, um senhor franzino, de terno marrom e cabelos grisalhos, com ares de nordestino, lia um livro de bolso, daqueles de faroeste, provavelmente escrito pelo profícuo Marcial Lafuente Estefania. No banco à minha frente, um rapaz, recém saído da adolescência, folheava uma revista “Close” (nesta revista “Close”, apareceu pela primeira vez, o travesti Roberta, que ainda não tinha o Close ligado ao seu nome, o que somente passou a acontecer após a sua aparição na publicação. Não entendo do “assunto”, mas entendo de revistas!). Uma senhora ao seu lado, aparentando o dobro da idade do rapaz, dirigia olhares afogueados para a revista e para o dono da revista; rapidamente começaram a conversar baixinho e, logo após, desceram, à procura de um hotelzinho barato, sem dúvida.
Lembro-me destes detalhes com uma clareza absurda, não sei se pela vagareza do ônibus, que não chegava nunca, o que me deu tempo suficiente para tantas observações, mas os detalhes ainda hoje me são extremamente nítidos. E tantas pessoas entraram e outras tantas saíram.
Muitos liam. São Paulo lia muito; não sou estatístico, mas creio que, apesar do seu enorme e rápido potencial informativo, a Internet reduziu nas pessoas este prazer de manusear um livro, um jornal, uma revista. Eu também lia, tentava me concentrar nos artigos do Paulo Francis, Arthur da Távola e outros, mas não conseguia.
A vida à minha volta estava bem mais interessante e mais cheia de curvas. Como diria Oscar Niemeyer, “Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta; dura e inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual”, contrapondo-se à Le Corbusier, para quem “a curva é cansativa, perigosa e funesta, possui um verdadeiro efeito paralisante”. Sei!
Chegando – finalmente – à Cidade Universitária, outras coisas aconteceram, mas nada tão interessante como o caminho, confirmando-se assim a velha tese, que o que realmente vale, o que conta, é a jornada; chegar é só conseqüência, só intervalo para uma nova caminhada, para novos aprendizados e quase indizíveis sensações, de tão tênues que são.
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