Tempos difíceis na chegada a São Paulo

Quem, nas primeiras décadas do século XX, deixou sua pequena cidade do interior e veio, como se dizia, "tentar a vida" na capital, certamente sofreu um bocado. As histórias são, no fundo, muito semelhantes e com meus pais não foi diferente, tanto que a permanência definitiva deles por aqui aconteceu em duas fases.

Primeiramente vieram com dois filhos. O mais velho já estava entrando em idade escolar e, por precaução, já que não sabiam o que iriam encontrar por aqui, foi deixado aos cuidados da tia madrinha que morava na fazenda, que cuidou dele como se fosse a própria mãe. E assim, vindos da região bragantina, aqui chegaram os pioneiros da família.

Chegando por aqui, foram ter de passagem à casa da Tonica, uma prima-irmã do meu pai que, depois de enviuvar em Joanópolis, veio para a capital com sua numerosa prole e no Cambuci se instalou. Fato curioso é que a prima Tonica foi casada com um tio da minha mãe, o Batista, italiano trabalhador, com alguma cultura e conhecedor de música. Os filhos dela, por isso, eram, ao mesmo tempo, primos-irmãos da minha mãe e primos em 2º grau do meu pai. E nada havia ali de incestuoso, basta fazer as contas.

Acontece que os tais filhos, especialmente os varões, não eram muito chegados no batente, mal-acostumados que foram pela mãe, que tinha dó de acordá-los bem cedo para saírem à procura de trabalho. Eram carinhosamente chamados pela mãe de "os meninos", tratamento mantido até a idade adulta. Como sobreviviam não se sabe. O lema da Tonica era: "Hoje está ruim, mas amanhã estará melhor". Passavam o tempo se lamentando, tomando cafezinho e tocando violão porque alguns herdaram do pai os pendores musicais.

Apesar daquele miserê todo, orgulhavam-se da sua ascendência italiana. Juravam que havia na Itália um tal de conde Alberti, dono de uma fábrica de bebidas muito conhecida, aquela que produziu mais tarde no Brasil o famoso Licor Stregga.

Isto, de certa forma, era um alimento para os seus egos. Mas o que precisava mesmo de alimento eram os seus estômagos, sempre a roncar. E meu pai logo percebeu isso, pois a hora do almoço foi chegando e como ninguém se dirigia ao fogão, foi aí que "caiu a ficha". Meu pai falou que na sua bagagem havia alguns engradados com ovos e pacotes de lingüiça conservadas no sal. Não foi preciso mais nada. Naquele dia, os filhos da Tonica tiveram um banquete.

E pouco tempo depois terminava a primeira fase dos meus pais na capital. As coisas não correram tão bem como imaginavam e resolveram voltar para Extrema – MG, cidade natal do meu pai. Depois, voltaram a morar no sítio em Bragança Paulista e lá ainda tiveram mais uma filha. Eu só fui nascer doze anos depois aqui em São Paulo, mas aí já é outra história.

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