Escaninhos

Em 1962, eu comecei a trabalhar como "contínuo" (hoje office-boy) em um escritório da Rua XV de Novembro, 228, que na época era um endereço bastante nobre da cidade.

Meu serviço era simples. Pela manhã, ia até às agências bancárias onde a firma tinha conta e levava o pedido de requisição de saldo, que eram entregues nos balcões de saldo. Eu recebia, de cada um deles, uma placa metálica numerada, para após as 12 horas retirar aquela papeleta de saldo já com o saldo preenchido a mão e assinado pelo responsável do banco.

Às vezes eu andava com cinco ou seis placas daquelas. Após realizar essa operação, ia com um molho de chaves até os escaninhos dos bancos para retirar a correspondência da firma, e após isso, ia até o Correio Central, no subsolo, para abrir o escaninho da caixa postal e retirar as correspondências.

Muita gente deve estar se perguntando: “Mas que raio de escaninho era aquele?” Escaninhos eram pequenas caixas metálicas, numeradas, com fechadura, que ficavam empilhadas, como em um armário de aço. Havia centenas em cada móvel, e no Correio eram milhares.

Curiosamente, hoje eu estive na agência do Banco do Brasil da Avenida São João, esquina com Rua São Bento, e qual não foi a minha surpresa ao me deparar com um armário daqueles, bem no corredor, defronte aos elevadores. Olhei pelas frestas para ver se alguma das caixas tinha correspondência, mas não, nenhuma delas continha mais do que algumas teias de aranhas e o cheiro de mofo, pelo tempo que devem estar fechadas.

Lembrei que hoje tudo é eletrônico, mas lamentei pelo fato de que, naquela época, ninguém tinha seu saldo da conta surrupiado eletronicamente. Seu extrato bancário era diretamente retirado por você mesmo e ninguém tinha acesso a ele. O caixa do banco pagava diretamente a você, reconhecendo-o pela constância na agência.

O banco era apenas um banco onde você depositava suas economias, e não o supermercado que é hoje, onde você paga, por todo e qualquer serviço, taxas absurdas, embora o banco não remunere o seu saldo.

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