Surpresas e Decepções

São Paulo, essa portentosa cidade, a maior da América do Sul e uma das maiores do mundo, tem certas peculiaridades que só em bem poucos lugares se encontram. O estrangeiro que para cá aporta, e resolve ficar, em pouco tempo estará familiarizado com paulistas e paulistanos, tão enraizado é o espírito cosmopolita de seus habitantes. Oferece simpática e acolhedora recepção que, sendo a primeira vez, tem a impressão de que sempre viveu aqui. E com os migrantes de outros municípios e estados, também, a mesma coisa.
Sou um velho paulistano, não um "paulistano velho" (tem muita diferença…) e, ao ler os deliciosos e ricos textos de meus colegas, neste embriagador site, tomo conhecimento de ocorrências, as mais variadas e curiosas, dando subsídios a pequenas e preciosas recordações, algumas agradáveis, outras curiosas e outras, ainda, decepcionantes. Pelos testemunhos e calculando a idade de todos, chego a (triste…) conclusão de que, realmente, sou um dos mais velhos dos colaboradores, completando agora, em agosto de 2008, um ano de participação. Aproveito o ensejo para agradecer a vocês todos ao incentivo e ao carinho com seus comentários, enriquecendo simples escritas que, despretensiosamente, envio ao SPMC. Vamos à surpresa.

Na década de 90, século passado, como boa parte de descendentes de italianos (…e de outras nações, também), me preocupei em tirar um passaporte italiano, afim de gozar da dupla cidadania, o que consegui. Com isso, propiciei a que todos da família, filhos, netos e sobrinhos, na esteira das documentações que obtive (com muito trabalho, diga-se…), pudessem ter seu passaporte italiano.
Quem já tirou o seu sabe o trabalhão que dá. Para ser atendido no consulado italiano, na Avenida Higienópolis, precisei, depois de várias tentativas, chegar de madrugada, enfrentar filas, satisfazer as exigências do governo italiano, (dentro do consulado você está em território estrangeiro…), com documentos traduzidos por tradutor juramentado, fotocópias, idas e vindas no consulado etc. Numa dessas idas, quase no final da obtenção do documento, estava numa fila aguardando, na parte interna do consulado, quando notei um senhor sentado numa mesa a poucos metros, trabalhando e despachando. Olhei bem para ele e não tive dúvidas, era ele mesmo, meu amigo de infância, Ciríaco. Um pouco mais gordo mas, era ele mesmo… Já não precisava mais de ajuda nos trâmites burocráticos, por isso me aproximei dele e disse: "Você é o Ciríaco, da Rua Fernandes Silva, no Braz… eu sou o Modesto, mas você deve lembrar do meu apelido de garoto: Tistiní… Seu pai era motorista do cônsul, a Senhora sua mãe, Dona Brasilina, pespontadeira de calçados, amiga de minhas irmãs. Você tinha um irmão, já falecido, o Júlio." Ele me olhou de cima a baixo e respondeu "Sou o Ciríaco, sim mas não lembro nada de você… ".
Alguns anos atrás dessa ocasião, numa recepção dada pela Associação Beneficente São Vito Mártir, no Braz, na paróquia, recebemos a visita do cônsul italiano, e quem era o motorista do carro do ilustre visitante? O Ciríaco, ocupando, por herança, o cargo exercido por seu pai. Conversamos, eu e outros amigos de infância, com o Ciríaco que se mostrou todo gabola, cheio de si pelo posto que ocupava. Depois daquele dia, nunca mais o vi. Guardei sua imagem, nunca imaginei encontrá-lo como funcionário do consulado, afinal ele era brasileiro.
Voltei a fila, sem falar nada, mas com vontade louca de dizer a ele: "Ciríaco, va fanculo, pezzo de citrulo", mas calei, depois de um trabalhão pra conseguir a cidadania, não ia por tudo a perder por uma coisa sem importância, queria apenas relembrar velhos tempos… E olha que eu me dava muito bem com ele… Notei, pelo rabo dos olhos, logo depois, que ele dava uma olhada pra mim, mas não dei mais bola.
Poucos dias depois, tive que voltar com minha esposa para assinarmos os últimos papeis, estávamos na fila interna quando o Ciríaco, me vendo, se aproximou e falou: "O que você precisa, agora?".
"Nada, já está tudo sacramentado, desde a última visita que fiz… eu não ia te pedir nada…”. Não esperou virou as costas e foi sentar.
Em seguida, soube que nossa cidadania tinha sido aprovada e que precisávamos voltar em uma semana para levar a documentação e o passaporte, se fôssemos viajar no momento.

Como não ia viajar, voltei para apanhar os documentos, e o funcionário me aconselhou a só obter o passaporte quando fosse viajar, para não ter mais despesas desnecessárias, o principal, a cidadania estava confirmada.
Olhei em torno, não vi o Ciríaco na mesa e perguntei se ele estava trabalhando. "O Ciríaco?” – respondeu o funcionário – “não vem mais… morreu faz três ou quatro dias…".
Tive a oportunidade de vê-lo pela última vez… Com um pouco de amargura, que sempre se perdoa com a morte…

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