Chegados à cidade de São Paulo, no inicio de 1948, meus pais vieram em busca de trabalho, pois a crise posterior a Segunda Guerra, tinha feito minguar as pequenas empreitadas do pedreiro. A necessidade de dar uma esperança de melhor condição de vida, de algum estudo, a uma família de seis filhos pesou na decisão de deixar a pequena cidade onde as raízes já estavam fincadas…
Lentamente alguns trabalhos foram conseguidos e os filhos menores, inclusive eu, com muita dificuldade foram colocados no grupo escolar; pois poucas vagas existiam. Poucas vagas, mas os que as conseguiam, tinham o privilégio de aprender, a serem alfabetizados e daí partir para sonhos maiores…
A vida não era fácil. Como empreiteiro de pequenas obras, a continuidade de atividades era importante para manter as contas em dia; o pagamento da caderneta no armazém da esquina, e sempre alguma reservinha para imprevistos… Mas vivíamos com dignidade.
Uma manhã, preparando-me para ir às aulas do grupo escolar, deparei-me com pequeno remendo na calça azul marinho… Era o único uniforme; não havia outro não… E um inocente pudor me fez contestar:
– “Mãe… Não vou à escola não… A calça está remendada!”
E ela, firme, resoluta e enfática:
– “Vai sim! A calça está remendada, mas está limpa…”
E fui sim, um tanto que desconfortável; mas fui…
Naqueles poucos segundos e diálogo, em que o respeito e submissão foram impostos, por um lógica momentaneamente não entendida, ela, analfabeta, estava me explicando o sentido da palavra dignidade,embora sem nunca tê-la pronunciado.
E-mail: [email protected]