Rua Pedro Cubas 88 e 90, no bairro do Piqueri, era o endereço do sobrado que pertencia ao meu avô. Compunha-se de duas casas geminadas com acesso por duas redes de escadas de cimento morro acima. Entrava-se pela porta da cozinha e seguia-se por um longo corredor. Banheiro à direita, atravessava-se a sala, outro longo corredor, quarto à direita, finalmente, quarto da frente da casa. Neste estava a janela alta de onde se admirava, ao sopé do morro, a enorme várzea do Tietê, com os tradicionais campos de futebol em linha, lagoas e grandes áreas com touceiras de capim, onde a molecada caçava preá.
O rio corria sinuoso, ramificado, cortado por duas pontes que completavam o percurso até a Lapa de baixo. Era sobrado para três famílias. No nº 90 morávamos meus pais, minha irmã e eu. No nº 88 meu meus tios, sem filhos vivos, pois perderam a filha pequena com pneumonia e meus avôs maternos. Havia ainda o nº 88B (creio), a casa que ficava no porão do sobrado, onde moravam outros tios e minha prima.
Da janela do quarto da frente, olhando-se à direita, se via a ponte da estrada de ferro "Santos-a-Jundiaí", antes "SPR" (São Paulo Railway), inglesa, nacionalizada como pagamento de guerra pelas mortes dos brasileiros em Monte Castelo. O avô, dono do sobrado, fizera carreira na ferrovia inglesa e se orgulhava de ter sido o maquinista do Cometa, primeiro trem a descer a Serra do Mar, rumo a Santos, pelo sistema de cremalheiras, tendo ele feito, inclusive, a viagem inaugural.
Esta mesma janela abria-se para um palco dos espetáculos do cotidiano. Dela admiravam-se as tempestades, o aguaceiro barrento que descia rua abaixo, cavando valetas enormes e torcia-se para o bêbado cambaleante subir a rua sem cair. Quase todo verão, na época certa, se assistia a moleques usando as traves dos campos como trampolim quando o Tietê inundava as várzeas. Havia o cachorro que persistia em perseguir um gato malhado e a molecada a descer a rua nos carrinhos de rolimã.
A poucos quarteirões dali ficava o grupo escolar Pio XII, única escola das redondezas, onde, obviamente, fiz o primário a partir de 1959. Como era um menino mais caseiro, por índole ou cuidado de minha mãe, lá dei meus primeiros passos de socialização, fiz meus primeiros progressos e tive meus primeiros destaques.
Lembro-me muito bem da professora mãezona, gorda e colorida, Dona Elza, especialista nos pequeninos. Naquela época ninguém fazia pré-escola, nem nada. Os pais é que instigavam os filhos a aprender alguma coisa antes do ingresso na escola formal.
No primeiro dia de aula, Dona Elza perguntou à classe quem sabia contar até dez. Não sei por que cargas d'água eu me voluntariei. Terminada a curta tarefa, perguntou se eu podia continuar e até quanto. Eu não tinha certeza de até quanto e então respondi que com certeza podia contar até cem. Terminada a tarefa maior, perguntou-me se sabia escrevê-los. Disse que claro que sim. Essa foi minha primeira lição de casa. Lembro-me bem de resmungar na casa da minha tia como eu tinha sido idiota! "Que devia ter dito que só sabia escrever até dez", repetia inconformado! Não gostar de lição de casa já vem junto com o DNA!
Por sorte, o primário seguiu como uma aventura. Meus professores eram bons instigadores da matemática e, com o tempo, fui apreciando os desafios da lógica e dos testes que me pareciam charadas a serem desvendadas.
Já no quarto ano, Dona Júnia nos desafiou com o cálculo da área de uma figura complexa, com algumas poucas medidas. Sabíamos área de quadrado, triângulo e paralelogramos e acho que até do círculo! Mas aquilo era uma figura complexa. Com custo, consegui decompô-la em formatos mais simples, cuidando de poder definir as medidas críticas para cálculo das várias áreas, para em seguida somá-las. Passado o tempo regulamentar, como quase ninguém conseguiu uma resposta – dois ou três tiveram respostas distintas e diferentes da que tinha a professora, ela apresentou a solução no quadro.
Eu não me convenci com o método dela e disse que tinha feito de outro jeito. Dona Júnia pediu que eu fosse à frente e mostrasse minha solução. Quando terminei a professora disse:
– “Está correto!”
Não creio que por maldade, mas realmente por estar confuso, um dos colegas perguntou:
– “E o outro jeito, também está correto?”
Dona Júnia, educadora fantástica, disse sem constrangimento algum:
– “Não, minha solução está errada. O correto foi como o Wagner fez”.
Esta aula me fez entender o que é realmente aprender. Se Dona Júnia planejou ou não esse episódio ou se ele ocorreu ao acaso, eu não sei. Mas a confiança e a minha postura com o aprendizado alavancou-se a partir desse dia. Eu tinha independência para pensar e estar certo a partir dali.
As idas de galocha pelas ruas de terra do Piqueri até o Pio XII, depois ao Jácomo Stávale, na Freguesia do Ó, e dai por diante, passaram a ser mais seguras. Obrigado, Dona Júnia, por errar!