Simplesmente a Sopa

Fins de Julho de 2008. Fim das férias escolares. Os netos, esparramados pela casa, curtem (alguns sem saber) talvez a última oportunidade de usufruir dos derradeiros momentos da infância, rumo à adolescência. Mexem em tudo, reviram armários e gavetas, pastas e velhas caixas de sapato, que guardam fotos antigas e outros arquivos já esquecidos pela memória (que já não anda grande coisa).

Um deles descobre, dentro de uma das pastas, um documento. "Cuidado, este não… Cuidado…”, grito, sem ser ouvido. “É um diploma do vô” (conclusão do curso primário). Tomo-o em minhas mãos e me afasto da agitação.

O papel, já bem amarelado, datado de 13 de dezembro de 1952, está agora sob meus olhos, e, nos espaços escritos com caneta e pena mosquitinho (que caligrafia!!!), meu nome, de meu pai (minha mãe não consta. Injustiça) e o nome do diretor do Grupo Escolar José Escobar (Rua Greenfel, Sacomã (ponto Fábrica), Ipiranga): Professor José de Mello.

Meu arquivo, embora já meio danificado, recupera algumas imagens e fatos. Um senhor velhinho (50/55 anos; a noção de tempo muda, né?), baixinho, gordinho, calvo, severo… Talvez nordestino. Raramente era visto na diretoria, uma sala com vitraux arredondados, na entrada do prédio, hoje demolida para obra do metrô.

Durante as aulas, onde aprendíamos as primeiras sílabas na Cartilha Sodré (a pata nada, pata pa… nada… na), ouvíamos constantemente o bater de martelo e o ruído do serrote. Lá estava ele montando, com suas próprias mãos, o refeitório e a cozinha da escola, separando um do outro, e o pátio, por treliçado de ripinhas… Banco e mesas de madeira rústica.

A verba para a empreitada era proveniente dos alunos da "caixa", e os pais dos alunos que "podiam" pagavam CR$ 2,00 ao mês (um doce de venda custava Cr$ 0,30). O pagamento era carimbado no verso do boletim: “pago”. Os que não podiam nada pagavam.

Durante o recreio, hora sempre aguardada, a fila se formava de maneira disciplinada. Primeiro, recebíamos um prato fundo e uma colher. Mais alguns segundos, uma conchada de sopa quentinha. Muito caldo, alguns grãos de arroz, pedacinhos de repolho picado, alguns sinais de carne. Mas o sabor… Que sabor! A sopa era preparada pela dona Guiomar, caboclona alta e forte, que conseguia obter dos parcos recursos materiais fornecidos, gratuitamente, pelo açougue e feirantes da Rua Greenfeld, aquele sabor que, algumas vezes, ainda consigo sentir.

Francamente, não sei se, naquela época, outros estabelecimentos de ensino público ofereciam aos seus alunos tais privilégios, hoje tão explorados demagogicamente pelos poderes públicos.

O diploma. Dia da entrega dos diplomas, solenidade simples e sem aparatos. Dona Laurinda, nossa professora do 4o. ano, era a paraninfa; serena, começou um discurso. Começou a gaguejar e, de sopetão, disse: “O Professor José de Mello é quem merece o respeito e gratidão de todos nós.”.

E ele, atônito, sem jeito, tentando se recuperar, buscou, na figura de dona Guiomar, que da porta entreaberta espreitava, o apoio que sempre tivera.

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