Os Primeiros Tempos: Jardim São Luiz

Na metade da década de 50, a expansão da cidade de São Paulo exigia um deslocamento para locais mais longínquos. Deste modo, caminhávamos todos para uma nova localidade, a terra prometida, única, por assim dizer, aquela que as pessoas podiam adquirir com parcos recursos existentes.

O velho caminhão partiu da Vila Nova Conceição e tomava a direção do desconhecido. Deslizava por uma estrada estreita em direção à região de Santo Amaro, um oásis, de matas verdejantes e represa exuberante, palco de encontros dominicais, única diversão nas águas límpidas, reflexo de toda nossa felicidade.

Parecia uma viagem de término sem fim, um chacoalhar contínuo com pouca mobília que o velho e destemido Ford, com escapamento de descarga enfumaçada, constantemente deslizava com os aventureiros na boléia.

Virava pra cá, pra lá, então pegava uma trilha onde parecia que a civilização havia parado, ou mal chegado. Esse lugar era antes passagem constante de boiadas e cavaleiros com suas montarias exuberantes.

Sem pressa, encontrava-se no trajeto uma galopante montaria, sendo o caminhão com a mudança o intruso na paisagem. Ultrapassava-os até que, novamente, por algum momento, emparelhava-se com outro alazão fogoso. Penetrava-se, deste modo, numa área de características rurais.

Era maravilhoso aos olhos pequenos, que para não perder nada piscavam pouco. Atravessamos essa fronteira por meio de uma ponte, construída pela São Paulo Light and Power Co. Ltd. ao longo da minha primeira travessia sobre o Rio Pinheiros, que mapeava a passagem própria dos rios, deslocando-se com toda elegância de beleza límpida.

Era um paraíso, todo virginal, exalando o cheiro típico das matas, onde o tilintar dos pássaros em revoadas constantes fazia o imaginário viajar, na doce brisa do vento, que penetrava no interior do caminhão em minha primeira viagem inesquecível.

Os obstáculos eram vencidos ao ronco constante do motor antigo do Ford importado, exalando fumaça de óleo queimado pelo ar, mas iam sendo transpostas as etapas, como um corajoso e destemido atleta.

Meu pai e o "chofer" optaram por entrar pelo caminho mais fácil, contornando o novo bairro pela "estrada" do João Dias, na já existente Vila das Belezas, única entrada em condições de trafegar e dar acesso a um veículo pesado, com mobília de madeira maciça e extremamente pesada, mas simples. Resumindo-se: a cama, guarda-roupa, criados-mudos, os gaveteiros laterais da cama. O mais valioso para a mãe era a cristaleira, cheia de vidro que dava até medo em chegar perto, pelo fato de quebrar alguma coisa estimada. Uma mesa tão pesada quanto o resto e algumas trouxas de roupas, que foram colocadas estrategicamente entre todas essas coisas, para amortecer impactos da viagem.

O dia ensolarado iluminava todo o caminho e a boléia do Ford roncador, aparecendo à nossa frente a tão esperada "terra prometida". A mesma apresentava-se exuberante, contornada por morros em volta, parecendo uma boca de vulcão, com as belezas que só a natureza pode nos proporcionar. Subir o morro foi árdua tarefa ao destemido Fordeco; agora era só aprumar a reta e descer segurando o freio, que gemia e gritava, mas que não falhou na sua trajetória, para a empreitada pelo qual foi contratado.

As ruas eram de uma terra vermelha, aplainadas por algumas máquinas niveladoras que sulcaram e demarcaram os terrenos da Companhia Paulistana de Terrenos. Não se conheciam as ruas por seus nomes, e sim por números seqüenciais e por letras. Ruas com nomes eram exclusividades nos lugares onde houvesse expandido o progresso, e era este que um dia nos acossou e que, na atualidade, continua com seu barbarismo da expulsão para locais mais longínquos da cidade.

Estávamos no céu, no sabor e perfume de um bairro do interior, na cidade de São Paulo, onde muitos foram acolhidos de braços abertos. O bairro era periférico, de uma grandeza tão descomunal que transcrever seria impossível e entender seria loucura. A mobília foi descarregada e, acertado o valor monetário pela empreitada, vimos ao longe partir o caminhão, transporte motorizado que demorou a adentrar novamente naquela ainda incipiente vila operária. (Só visto novamente quando comprou-se o fogão a gás, cuja cota era entregue por um caminhão que só subia com correntes amarradas em volta dos pneus, para não patinar em dias de chuva.)

Começava nova etapa em que o homem era o esteio da casa, a mulher o esteio do lar, e juntos faziam com que as coisas familiares crescessem completadas com os filhos. Carecíamos de tudo quanto se pudesse imaginar, menos da vontade incessante de trabalhar.

Moradias de alvenaria eram ainda distantes no pensamento daqueles desbravadores, primeiros "colonos" corajosos que demonstraram toda garra para atingir seus objetivos. As casas eram de madeira ripada no vão entre elas, para conter o vento que poderia penetrar nas frestas. Umas eram cobertas com telhas francesas no nome e brasileiras no barro cozido. Às vezes, o recurso escasso obrigava a recorrer-se ao sapê, capim alto abundante e que se fazia às vezes de telha – e quanto aconchego apresentava.

Muitos, quando não podiam adquirir as tábuas aplainadas, fabricavam as tradicionais casas de pau-a-pique, construídas ao entrelaçar varas de árvores baixas, ou bambu, disponíveis com facilidade, que depois eram preenchidas com barro misturado ao esterco de vacas, formando a liga necessária. As casas eram de chão batido socado, depois substituído por piso vermelhão, um luxo a ser alcançado aos pouquinhos, concordando com a sabedoria popular: “apressar-se, devagar”.

As mães resolutas e exigentes buscavam manter o esmero de tudo aquilo que conseguiram com o sacrifício dos tempos. As roupas, asseadas, eram alvejadas com as milagrosas pedras de anil, sem contar as gomas que deixavam as camisas "de missa" bem durinhas, e para isto era necessário água.

Muitas poucas pessoas tinham recursos suficientes para cavar um poço e encontrar um veio que brotasse com a intensidade necessária, onde a maior dificuldade para atingir o "olho d'água" era pedra, muita rocha encontrada sob todo local. Quem possuía seu "bendito" poço deixava os demais usufruírem as benesses apresentadas pela natureza.

A fossa era projetada no fundo do terreno, para os banheiros e as águas de limpeza doméstica. Às vezes, estes mesmos banheiros continham as fossas, as latrinas, logicamente fora das residências, para evitar exalar o cheiro desagradável para toda casa. Outros adquiriam "manilhas", tubos de barro, canalizando todo o sistema das águas.

Poceiros eram requeridos a todo o momento e tinham que se programar para manter sua palavra, que na época era coisa respeitada com dignidade. Ismael, Expedito, Dutra, Zé Poceiro e muitos outros mestres sabiam manejar e prever tudo quando poderia advir na labuta exaustiva da escavação de um poço. Acertando-se a parte financeira, montava-se um acampamento com sarilhos, cordas, picaretas, latas e todos os apetrechos necessários, demarcando e iniciando o trabalho.

A terra era cavada, e a delícia de se lançar nela era a melhor brincadeira aos olhos das crianças. Um metro, dois, três, dez e começava a sair uma pedra mole, depois de muito saibro, que se desfazia como um farelo. Era o prenúncio de muita dificuldade futura, o que não esmorecia nem o dono e nem o poceiro, e o "tac-tac" da batida de picareta com cabo curto escutava-se como constante, e o ritmo diminuía até sumir de vez.

Quando Seu Expedito, chapéu de couro na cabeça, saía do buraco, parecia mais um tatu, todo marrom, pintado de cima em baixo. Esbaforido, puxava um pedaço de fumo de corda, um rolinho de palha de milho, um canivete alisava a palha meia dúzia de vezes. Sentava-se a olhar o buraco ao lado de seu fiel escudeiro, que puxava o sarilho da terra cavada. Picava o fumo, montava o seu pito, baforava uma, duas, três vezes, e suspirava dizendo: "Por hoje é só, amanhã tem mais!". Pegava a roupa surrada, descia a rua numa imagem surrealista e desaparecia por entre os lotes e os morros a caminho de sua casa, onde sua família o aguardava após mais um dia exaustivo.

Mal clareava, batendo uma cerração, que era próprio da mata virgem, estavam o mestre posseiro e ajudante novamente na labuta, em um ritmo constante, iniciado com o pendurar-se na corda atravessada por um pau; e lá ia nosso malabarista ao "centro da terra".

O sarilho enrolava e desenrolava, subindo a terra contida na lata num ritual frenético, trinta metros, trinta e um, trinta e dois e trinta e três. De repente, uma rocha cinza e dura começava a se misturar à terra.

Desconsolado, o posseiro tinha um problema sério a resolver: rocha dura, um arenito na base do poço! O serviço mal rendia, e o dono da casa precisava adquirir bomba, dinamite! Nós, crianças, nunca tínhamos visto bomba explodir, e agora queríamos ver estourar um buraco tão bem feitinho. Durante o processo podia ter gás, e quando acontecia, o poceiro agitava logo a corda, que era puxada com pressa, chegando ao topo quase desmaiado, sem fôlego. Era comum jogar galhos com ramas verdes ao fundo do poço para "chupar o gás".

As crianças eram recuadas pelos adultos, iniciando todo ritual administrado pela experiência de quem conhecia o assunto. Furada a rocha, fixavam-se as bananas de dinamite nas fendas, e subia-se à superfície o pavio detonador. Expectativas à parte, queríamos estar presentes naquele instante único e ver ao vivo o estrondo das bombas no maior ribombar, mas, no fundo, o estrondo da dinamite era abafado pela profundidade, o que foi uma decepção para a garotada, que não ouviu estrondo algum, mas que foi uma felicidade imensa para o poceiro e seu companheiro: a água brotava límpida do veio entre as rochas. Era mineral, nascia da natureza; abençoando o bairro com o precioso líquido abundante. Apesar do sacrifício humano, honrava o nome. Jardim.

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